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Josias de Souza

Acuado, Bolsonaro vive a terceira onda da irresponsabilidade sanitária

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/05/2021 17h16

Bolsonaro orgulha-se do seu passado de paraquedista no Exército. Mas no exercício da Presidência demora a perceber que o cérebro é como um paraquedas. Só funciona quando está aberto para a realidade. O capitão está acuado pelos depoimentos de Henrique Mandetta e Nelson Teich. Os dois ex-ministros revelaram na CPI da Covid detalhes do modelo anticientífico que o presidente impôs à Saúde na gestão da pandemia. Indefeso na comissão, Bolsonaro inaugurou a terceira onda de sua irresponsabilidade sanitária.

Contra as medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos, Bolsonaro ameaça novamente baixar um decreto para "garantir o direito de ir e vir". Num instante em que o Brasil depende de insumos da China para fabricar vacinas, insinua que o coronavírus é parte de uma "guerra química" deflagrada de propósito pelos chineses. "Que país mais cresceu seu PIB?", indagou, como se enxergasse motivação econômica na trama que enxerga em Pequim. Às voltas com a escassez de vacinas, chamou de "canalhas" as pessoas que se opõem ao tratamento precoce com a ineficaz hidroxicloroquina.

Há três tipos de gestores públicos: os que fazem, os que mandam fazer e Bolsonaro, que pergunta a si mesmo, atônito: O que está acontecendo? Na primeira onda de sua gestão irresponsável, o capitão deixou a "gripezinha" acontecer. Na segunda onda, impediu que acontecesse a gestão técnica dos doutores que colocou na pasta da Saúde. Receitou a cloroquina e convidou o brasileiro a desafiar o vírus de peito aberto —"Como homem, porra, não como um moleque", pois o Brasil precisa "deixar de ser um país de maricas."

Agora, na terceira onda, Bolsonaro pergunta aos seus botões o que está acontecendo na CPI. Como os botões não respondem, porque não falam com qualquer um, o presidente ignora a lógica de funcionamento do paraquedas e se fecha em seus rancores, lançando diatribes no ventilador.

Em setembro de 2015, ainda como deputado federal, Bolsonaro discursou na Câmara durante cerimônia de homenagem aos medalhistas dos Jogos Pan-Americanos e Parapan-Americanos de Toronto. Falou do seu passado de atleta. A certa altura, relatou um acidente que sofreu.

"Eu lembro de um salto na brigada paraquedista em que eu quebrei os quatro membros", declarou o então deputado Bolsonaro. "Quando eu dei um salto e quebrei os dois braços, tudo bem. Agora as duas pernas... Foi quando eu fui apresentado ao astrágalo, um osso da região do calcanhar. Eu deixei de ser atleta. Eu sofri muito com aquilo. Situação semelhante aos paralímpicos. Se bem que não perdi nada, mas perdi o movimento da perna direita, ou da pata traseira direita como alguns dizem, dado ao meu apelido naquele momento."

O apelido de Bolsonaro no Exército era "Cavalão". Daí a referência jocosa à "pata traseira". No futuro, quando conseguir refletir sobre sua Presidência sem colocar a culpa nos outros, o capitão talvez perceba que sua mente fechada produziu danos infinitamente maiores do que o salto malsucedido de paraquedas. A pilha de cadáveres continua crescendo. Não é uma fraturazinha. A reiteração da irresponsabilidade aponta para a marca de 500 mil corpos.