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Josias de Souza

STF começa a jogar sal na limonada que Bolsonaro esperava espremer na CPI

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/06/2021 11h25

Ao liberar o governador amazonense Wilson Lima de comparecer à CPI da Covid, a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, começou a jogar sal na limonada de Bolsonaro. Na conversa telefônica que manteve com o senador Jorge Kajuru o presidente pediu que o interlocutor o ajudasse a fazer "do limão uma limonada" na CPI. "Se não mudar a amplitude, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello, ouvir gente nossa, pra fazer um relatório sacana", declarou.

No telefonema, que foi gravado por Kajuru, Bolsonaro foi ao ponto. Disse que era preciso levar governadores e prefeitos ao ventilador. A comissão aprovou a convocação de nove governadores, todos já investigados pela Procuradoria-Geral da República e pela Polícia Federal por desvios de verbas da saúde. Wilson Lima seria o primeiro depoente. Ironicamente, trata-se de um aliado de Bolsonaro.

Na prática, a decisão de Rosa Weber converteu a convocação de Wilson Lima em convite. Tornou o comparecimento do governador facultativo. E autorizou o investigado a silenciar para não se autoincriminar. A ministra é relatora também de ação movida por 19 governadores. Eles pedem a suspensão de "qualquer ato da CPI referente à convocação para depoimento de governadores de estado e do Distrito Federal". A decisão sobre Wilson Lima sinaliza que a limonada que Bolsonaro esperava fazer na CPI desandou.

A novidade chega num instante em que a CPI começa a mudar de patamar. Até aqui, a comissão se dedicava a ouvir os Pazuellos de que falava Bolsonaro no diálogo com Kajuru. Nas próximas semanas, a investigação ganhará uma face financeira. O G7, grupo majoritário da CPI, se equipa para investigar os negócios impulsionados pela obsessão de Bolsonaro pela cloroquina.

Os senadores começaram a virar a página no instante em que aprovaram, na sessão de quarta-feira, a convocação do empresário Renato Spallicci. Ele é presidente da Apsen Farmacêutica, maior fabricante de hidroxicloroquina do país. Assinou em 2020 dois empréstimos com o BNDES no valor de R$ 153 milhões, dos quais R$ 20 milhões já foram liberados.