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Josmar Jozino

Acusado de matar Marielle Franco teme ser morto por rivais na prisão

O policial militar Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco - Marcelo Theobald/Agência O Globo
O policial militar Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle Franco Imagem: Marcelo Theobald/Agência O Globo
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

28/12/2020 04h00Atualizada em 29/12/2020 18h42

A vida na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS) não está nada fácil para o policial militar reformado Ronnie Lessa, 50, acusado de matar a vereadora Marielle Franco, 38, e o motorista dela, Anderson Gomes, 39, em 14 de março de 2018 no bairro do Estácio, Rio de Janeiro.

Lessa tem medo de ser morto por rivais na prisão. O temor não o atormenta por acaso. O presídio reúne integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) acusados de matar policiais militares em SP; psicopatas do CV (Comando Vermelho) do Rio, e até terroristas do Estado Islâmico.

Ronnie Lessa ingressou na PM do Rio de Janeiro em 4 de novembro de 1991 e passou para a reserva em 10 de outubro de 2012 como sargento. Serviu em unidades militares que registram alto índice de letalidade, como o Batalhão de Choque e o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).

Segundo policiais civis fluminenses, Lessa, quando desfilava armado de metralhadora e pistolas automáticas nos subúrbios cariocas e desfrutava do prestígio de quadrilhas de milicianos e de grupos de extermínio, era "metido a valentão e destemido".

Hoje, a situação dele se inverteu na cadeia. Só vive amedrontado, cabisbaixo, calado e desconfiado. É considerado "troféu". A presença de PM em presídio comum, mesmo sendo apontado pelas autoridades como "bandido de farda", não é bem vista pela população carcerária.

O suspeito de ser o assassino de Marielle Franco está jurado de morte na prisão. Segundo agentes, não são poucos os inimigos que gostariam de matá-lo para "levantar o troféu e ganhar todas as honras e o respeito" dos faccionados das mais variadas organizações criminosas recolhidos no presídio de Campo Grande.

O Depen (Departamento Penitenciário Nacional) afirma que segue procedimentos de segurança à risca e que há a vigilância aproximada do preso. "Além disso, as celas são individuais e as movimentações são feitas de forma individualizada."

Fontes do sistema prisional disseram que Lessa está em uma ala — chamada de vivência — onde não há presos de facção criminosa. Afirmaram ainda que mesmo assim o sono dele não é tranquilo porque ele sempre sentirá medo, principalmente na saída da cela para o pátio de banho de sol.

Nos cinco presídios federais — Campo Grande; Catanduvas (PR); Mossoró (RN); Porto Velho (RO) e Brasília (DF) —, não há relatos de assassinatos de detentos. Mas as hostilidades e ameaças dirigidas aos prisioneiros desafetos são constantes e ecoam nas galerias sombrias, tornando difícil contê-las.

Elias Maluco não suportou pressão

Os presidiários sempre proferem ofensas aos rivais jurados de morte: "verme", "lixo", "coisa", "filho da puta", "vai morrer", "troféu", são alguns dos xingamentos. Lessa ouve esses gritos ameaçadores desde que chegou ao presídio de Campo Grande, no último dia 9.

Segundo o Depen, foi nessa mesma unidade que o preso Antônio Domingos de Souza, o Coquinho, condenado a 27 anos pelo assassinato de um sargento da PM de São Paulo, batizou no PCC o preso Fernando Pinheiro Cabral, 26 anos, do Estado Islâmico.

Cabral foi condenado a cinco anos e seis meses de prisão. A Polícia Federal apurou que ele e outros comparsas, todos presos e também condenados, integravam uma célula terrorista do Estado Islâmico no Brasil e planejaram atentados no País durante os Jogos Olímpicos Rio 2016.

O Depen descobriu que Cabral foi batizado por Coquinho no PCC em setembro de 2018. Integrantes das quadrilhas dos dois prisioneiros cumprem pena em Campo Grande. Um deles, envolvido no assassinato do sargento da PM paulista, tem péssimo comportamento carcerário.

Outro prisioneiro que cumpre pena na Penitenciária Federal de Campo Grande é Luiz Fernando da Costa, 53, o Fernandinho Beira-Mar, um dos chefes do CV. O traficante tem histórico de violência e assassinatos em prisões estaduais.

Para defensores de Ronnie Lessa, a remoção do cliente para presídio federal representa um "atentado à dignidade humana e ele deveria ficar acautelado no BEP (Batalhão Especial Prisional) do Rio de Janeiro antes de ser julgado pelos homicídios aos quais é acusado".

Já para organizações de direitos humanos "atentados foram os assassinatos covardes de Marielle Franco e de Anderson Gomes". Lessa é acusado de ter efetuado quatro disparos na cabeça da vereadora e outros três nas costas do motorista dela.

Antes de ser removido para Campo Grande, Ronnie Lessa estava preso na Penitenciária Federal de Porto Velho. A Justiça Federal de Rondônia prorrogou a permanência dele em unidade prisional administrada pelo Depen até o dia 21 de março de 2023.

Advogados de Lessa lutam na Justiça para tentar o retorno dele para um presídio no Rio de janeiro. O dia a dia do policial militar na unidade federal de Campo Grande está se tornando um inferno.

Assim como Ronnie Lessa, o preso Elias Maluco, 54, outro chefe do CV, condenado a 28 anos pelo cruel assassinato do jornalista Tim Lopes, 52, em junho de 2002, passou por vários presídios federais. Ele não suportou a pressão. Foi encontrado morto na cela, em Catanduvas, em 22 de setembro deste ano.

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