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Josmar Jozino

Preso acusado de ameaçar promotor passa Natal isolado em presídio federal

Gonçalves é um dos recordistas em faltas disciplinares graves cometidas no sistema prisional paulista - Reprodução/UOL
Gonçalves é um dos recordistas em faltas disciplinares graves cometidas no sistema prisional paulista Imagem: Reprodução/UOL
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

25/12/2020 04h00

O preso Gabriel Nekis Gonçalves, 26, flagrado em outubro de 2019 com bilhete ordenando a morte do promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do MPE (Ministério Público Estadual) passa hoje o primeiro Natal de sua vida na Penitenciária Federal de Brasília, em cela isolada.

No mesmo presídio estão recolhidos os principais chefes do PCC (Primeiro Comando da Capital), entre eles Marco Willians Camacho, o Marcola, apontado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo como o líder máximo da organização criminosa.

Gonçalves é um dos recordistas em faltas disciplinares graves cometidas no sistema prisional paulista. Ele já engoliu chips de telefone celular, agrediu e ofendeu agentes penitenciários, ateou fogo em colchão na cela e foi surpreendido com bilhete contendo ameaças de morte a autoridades.

No boletim informativo do preso constam 19 atos de indisciplina registrados em quatro anos de prisão, de 2015 a 2019. O pior deles aconteceu no final do ano passado. Foi flagrado na Penitenciária de Presidente Bernardes com bilhete ordenando a morte de Lincoln Gakiya.

O promotor é do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) de Presidente Prudente, órgão do MPE. Gakiya há 15 anos investiga as ações do PCC e graças à atuação dele a liderança da facção foi transferida para presídios federais em fevereiro de 2019.

No bilhete apreendido com Gonçalves no dia 21 de outubro de 2019 havia uma ordem para matar Gakiya naquela semana mesmo. A mensagem dizia que não era para ficar vivo o promotor de Justiça nem a escolta dele, formada por experientes policiais militares de tropa de elite.

A carta mencionava onde poderiam ser encontradas as armas para a realização do atentado. Era uma casa em Presidente Prudente. Policiais realizaram buscas no local, mas nenhum armamento foi achado.

A mensagem em poder de Gonçalves foi a gota d'água para a transferência dele para um presídio federal, por conta da gravidade do ato. A remoção ocorreu em julho deste ano. Ele foi preso em 26 março de 2015 pelo roubo de uma caminhonete Toyota Hilux em Bauru (SP). Por esse crime foi condenado a cinco anos e quatro meses de prisão.

O advogado Ricardo Apolinário de Vasconcellos, defensor de Gonçalves, disse que por questões profissionais só vai se manifestar nos autos do processo.

Recordista em faltas graves

O detento passou por vários presídios no estado de São Paulo e, em todos eles, cometeu faltas graves. Em 6 de setembro de 2019, menos de dois meses antes de ser surpreendido com o bilhete contendo ameaças ao promotor Gakiya, Gonçalves foi acusado por mais um ato de indisciplina.

Ele estava na Penitenciária de Lavínia. Quando passou pelo detector de metal, o equipamento acionou o sinal sonoro. O preso foi encaminhado então ao aparelho de scanner corporal e foi constatado que no estômago dele havia objetos metálicos.

O preso confessou ter engolido três chips de telefone celular e pedaços de fio de cobre. Um ano e meio antes, em 18 de março de 2018, ele havia feito a mesma coisa no CDP 4 (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros, zona oeste da capital.

Segundo a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária), Gonçalves expeliu 13 pedaços de fio de cobre. Os presos usam o material para fazer fonte de energia para o telefone celular, sem precisar de bateria.

Em 20 de maio de 2019, o prisioneiro, apontado como integrante do PCC e de alta periculosidade, ofendeu e ameaçou matar funcionários na Penitenciária 1 de Presidente Venceslau. Sete meses depois, no mesmo presídio, ateou fogo em um colchão na cela de castigo.

Um levantamento feito pelo UOL mostra que, em quatro anos de prisão, Gonçalves cometeu mais faltas graves —total de 19— do que cada um dos 15 líderes do PCC que estão presos há pelo menos duas décadas e foram removidos para presídios federais em fevereiro do ano passado.

No boletim informativo de Marcola consta que ele praticou 12 faltas disciplinares de 1989 a 2006. Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, número 2 do PCC, assinou 17 faltas de 1993 a 2018. Daniel Vinicius Canônico, o Cego, cometeu 10 faltas entre 1997 e 2014.

Gonçalves foi punido pela SAP com isolamento disciplinar pelas faltas de natureza grave. Pelas ameaças a agentes da Penitenciária 1 de Presidente Venceslau foi condenado no último dia 8 a 10 meses. O processo pela ameaça de morte ao promotor Gakiya tramita em segredo de Justiça.