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Josmar Jozino

Homem que gravou manifesto do PCC exibido na Globo nunca foi identificado

Integrante do PCC lê manifesto que foi exibido pela TV Globo - Reprodução - 13.ago.2006
Integrante do PCC lê manifesto que foi exibido pela TV Globo Imagem: Reprodução - 13.ago.2006
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

12/03/2021 04h00

Já se passaram quase 15 anos. E até hoje a Polícia Civil de São Paulo não identificou o homem mascarado que gravou e leu um manifesto do PCC (Primeiro Comando da Capital), exibido pela TV Globo na madrugada de 13 de agosto de 2006, em troca da libertação do repórter da emissora Guilherme Portanova, sequestrado um dia antes pela facção criminosa.

O homem que leu o manifesto gravado em DVD, com duração de três minutos e meio de reivindicações do grupo criminoso, usava capuz preto. O PCC ameaçou matar o jornalista se o vídeo não fosse divulgado. O encapuzado falava com sotaque nordestino. Durante a leitura, o mensageiro da organização cometia erros de concordância verbal.

A ousada ação do PCC, sem precedente no Brasil, em obrigar a maior emissora do país a exibir um vídeo com mensagens de interesse da maior facção criminosa nacional, tática usada por violentas organizações terroristas internacionais, continua impune após uma década e meia.

O UOL procurou a Secretaria Estadual da Segurança Pública para saber qual foi o desfecho do inquérito policial aberto para apurar o caso e também se o encapuzado foi identificado. Até a conclusão desta reportagem, a pasta não havia dado retorno. Apenas os acusados pelo sequestro foram presos, mas acabaram absolvidos.

O jornalista e o auxiliar técnico Alexandre Coelho Calado tomavam o café da manhã em uma padaria na avenida Luís Carlos Berrini, no Brooklin, zona sul de São Paulo, perto da sede da Globo. Eles aguardavam a chegada do cinegrafista para cumprir uma pauta. Mas foram dominados, colocados em um veículo roubado e levados para um cativeiro em local até hoje ignorado.

Calado foi solto no final da noite com a missão de entregar para seus superiores um DVD. Caso o conteúdo não fosse divulgado pela TV Globo, o repórter Portanova seria assassinado. O auxiliar técnico chegou assustado à sede da emissora e explicou aos chefes qual era a exigência dos sequestradores.

O repórter Guilherme Portanova ficou 40 horas no cativeiro - André Porto/Folhapress - André Porto/Folhapress
O repórter Guilherme Portanova ficou 40 horas no cativeiro
Imagem: André Porto/Folhapress

A direção da Globo consultou organismos internacionais e foi aconselhada a exibir a gravação para preservar a vida do jornalista mantido em poder dos criminosos. A veiculação foi feita no início da madrugada seguinte.

Horas antes, o diretor da DAS (Divisão Antissequestro), da Polícia Civil, delegado Wagner Giudice, tinha ido à redação da Globo, onde se reuniu com a direção de jornalismo da empresa. O policial implorou para que o DVD não fosse divulgado porque tal decisão abriria perigoso precedente. O apelo dele foi em vão.

A famosa vinheta do "Plantão Globo" tocou interrompendo a programação normal. O âncora César Tralli anunciava que os sequestradores haviam deixado Calado perto da emissora e que entregaram ao auxiliar técnico um DVD informando que a condição para libertar o repórter era a divulgação na íntegra do conteúdo.

O vídeo foi exibido e as imagens mostravam um homem encapuzado lendo as reivindicações do PCC, como condições mais humanas nas prisões e o fim do RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), sistema de castigo no qual o preso fica isolado 22 horas em cela individual e só tem duas horas diárias de banho de sol. O vídeo tinha três minutos e meio de gravação.

Portanova ficou 40 horas no cativeiro e foi libertado pela manhã, no Morumbi, zona oeste. Ele chegou à redação sem camisa, pálido e trêmulo.

Colegas dele não conseguiram conter as lágrimas. O então diretor regional de jornalismo, Luiz Cláudio Latgé, muito abalado com o episódio, começou a chorar a partir da divulgação do vídeo.

O caso teve repercussão mundial. Cinco pessoas acusadas de envolvimento no sequestro dos dois profissionais da Globo foram presas, julgadas e absolvidas.

A Justiça entendeu que as provas reunidas não foram suficientes para condenar os réus por sequestro, roubo e incêndio do veículo usado no crime e formação de quadrilha. O encapuzado que gravou o manifesto não foi identificado e também saiu impune.