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Josmar Jozino

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Acusado por tráfico internacional de armas desfigurou rosto de ex-mulher

Agentes federais apuraram que Araújo despachava armas dos EUA ao Brasil pelos Correios em rodas de pneus - Arte/UOL
Agentes federais apuraram que Araújo despachava armas dos EUA ao Brasil pelos Correios em rodas de pneus Imagem: Arte/UOL
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

17/06/2021 04h00

O casal Herbert Belo de Oliveira Araújo, 33, e Paula Lacerda Lucas, 29, viveu em harmonia durante 13 anos. Nesse período, sempre foi unido, inclusive no tráfico de armas para o PCC (Primeiro Comando da Capital), facção criminosa de São Paulo, e o CV (Comando Vermelho), do Rio de Janeiro.

Segundo a Polícia Federal, ambos viajaram juntos para os Estados Unidos mais de 20 vezes para comprar armamentos. A munição, carregadores e fuzis eram enviados pelos Correios para o Brasil, escondidos em pneus de automóveis.

Em São Paulo, as armas eram destinadas a integrantes e assaltantes de bancos ligados ao PCC, como o bando que tentou roubar agências bancárias em Guararema (SP), em abril de 2019, quando 11 ladrões foram mortos pela PM (Polícia Militar). No Rio de Janeiro, o arsenal era enviado para homens do CV na Rocinha.

PCC - Arte/UOL - Arte/UOL
Herbert Belo de Oliveira Araújo, acusado de vender armas a facções
Imagem: Arte/UOL
A união conjugal, as viagens internacionais e as cumplicidades amorosa e criminosa do casal tiveram um fim em janeiro do ano passado. Paula descobriu que o marido a traía e decidiu deixá-lo. Araújo ficou inconformado com a separação e passou a ameaçá-la de morte.

Em agosto de 2020, Paula foi a uma festa em uma adega em Guarulhos, na Grande São Paulo, e conheceu um atleta profissional de 26 anos. Eles trocaram mensagens e, no dia 26 de setembro daquele ano, resolveram ir a um motel em Itaquera, na zona leste da capital.

Paula dirigia o carro dela, um Volkswagen Fox. Ela só não sabia que o ex-marido havia colocado um rastreador no veículo. Araújo começou a segui-la desde a rodovia Ayrton Senna, nas proximidades do acesso para São Miguel Paulista.

A garota encontrou-se com o atleta em um barzinho na avenida Pires do Rio, em Itaquera, e depois o casal foi para o motel Pleno. Araújo continuou seguindo a ex-mulher. Ele também entrou no motel e disse que ficaria sozinho em um quarto.

Furioso e descontrolado, procurou o carro de Paula e encontrou o veículo na vaga da suíte 228. Eram 5h. A porta estava aberta. Ele entrou no quarto, subiu na cama e agrediu Paula com vários socos e pontapés. O atleta se trancou no banheiro.

Araújo arrastou Paula, nua, até o carro dele. A recepcionista do motel avisou à polícia e tentou impedir a saída dele. A cancela foi quebrada, e o motorista saiu em alta velocidade com o veículo. Minutos depois, a garota foi encontrada caída na pista da avenida Aricanduva.

Paula continuava nua e sangrava muito. Pessoas que estavam em um ponto de ônibus ajudaram a socorrê-la. Ela agonizava. Estava toda ensanguentada e mal conseguia falar. Uma pessoa chegou a filmar a cena. O vídeo foi entregue à polícia.

A reportagem teve acesso às imagens. Como as cenas são muito fortes, o UOL decidiu não publicá-las. A garota foi levada para o Hospital Santa Marcelina, em Itaquera. Ela perdeu dentes e sofreu fraturas no nariz e na mandíbula. Foi submetida a cirurgia porque o rosto ficou desfigurado.

Prisão pela PF

Paula foi agredida outras vezes e não prestou queixa. O Ministério Público Estadual insistiu em pedir a prisão de Araújo, acusado por tentativa de feminicídio, e o classificou como pessoa extremamente violenta e com personalidade voltada à criminalidade. A juíza Giovanna Christina Colares, da 4ª Vara do Júri, decretou a prisão preventiva dele no dia 7 de junho deste ano, nove meses após o crime.

Araújo, no entanto, acabou preso seis dias antes, por policiais federais. A acusação foi por tráfico internacional de armas, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Paula responde ao mesmo processo, mas está em liberdade.

Na casa dele, no Jardim Líbano, zona oeste paulistana, os policiais apreenderam carros de luxo, motos, uma pistola calibre 40, munição para fuzil de calibre 5.56, 25 kg de um produto químico usado para preparar cocaína, além de relógios e dólares.

A Polícia Federal investigava o casal desde 28 de fevereiro de 2019, quando Araújo e a mulher desembarcaram no aeroporto de Dallas, no Texas, e declararam estar com US$ 20 mil. Em outra viagem para os Estados Unidos, em 24 de novembro de 2019, ele teve os celulares apreendidos pelas autoridades norte-americanas.

Agentes federais do Brasil analisaram o conteúdo dos aparelhos e apuraram que Araújo comprava armas nos Estados Unidos e despachava pelos Correios para São Paulo e Rio de Janeiro em rodas de pneus. A PF deflagrou a Operação Pneu de Ferro e desbaratou a quadrilha. Outros dois homens já tinham sido presos.

Os federais apuraram que Paula adquiriu 32 passagens para os Estados Unidos. Foram 22 viagens entre 2016 e 2018 e outras dez em 2019. Araújo comprou 23 tíquetes. Viajou 17 vezes entre 2016 e 2018 e seis vezes em 2019.

Segundo a SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária), Araújo está preso na Penitenciária 1 de Mirandópolis (SP), um dos fortes redutos do PCC.

A defesa de Araújo não quis se manifestar sobre o processo de tentativa de feminicídio porque o caso está em segredo de Justiça. O UOL não conseguiu localizar os advogados que defendem o casal nas acusações que correm na Justiça Federal do Rio de Janeiro.