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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

MP vê grande chance de execução em operação policial de Queiroz e Adriano

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

05/05/2021 04h00Atualizada em 05/05/2021 13h32

O inquérito para investigar a morte de Anderson Rosa de Souza, 29 anos, avançou na Polícia Civil do Rio. O MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) avalia, agora, depois de uma série de novas diligências, que é grande a chance de ele ter sido alvo de uma "execução" durante uma operação policial comandada pelo então tenente Adriano Nóbrega e Fabrício Queiroz, à época sargento, em 2003, na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio.

"Há grande probabilidade de que tenha ocorrido efetivamente um crime de homicídio qualificado (execução)", informa um documento do MP-RJ, obtido pela coluna, com exclusividade. Há suspeita do uso de uma arma ilegal no crime. A promotoria pediu novas diligências à polícia no dia 21 de abril.

O caso está prestes a completar 18 anos nos próximos dias. Em 15 de maio de 2003, Nóbrega e Queiroz, ambos então servindo no 18º Batalhão da PM, registraram a morte como "homicídio proveniente de auto de resistência", dizendo que revidaram um ataque a tiros.

A investigação, porém, aponta para outra conclusão. O caso ficou parado por muito tempo e foi retomado em julho do ano passado, quando o MP-RJ verificou uma série de falhas e pediu a perícia das armas dos policiais - o que não tinha sido feito após quase duas décadas do início do inquérito, que está a dois anos da prescrição. Uma denúncia precisa ser oferecida nesse período ou o crime ficará impune. Por nota, o MP informou que recebeu um terceiro relatório do caso na semana passada e devolveu os autos à DEAC (Delegacia de Acervo Cartorário), onde o caso é investigado, na semana passada.

miliciano - Reprodução - Reprodução
O miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega durante vida como fugitivo na Bahia
Imagem: Reprodução

O advogado Paulo Emílio Catta Preta, que atua na defesa de Fabrício Queiroz, afirmou, por nota, que é "estranha a notícia de reviravolta na investigação". Também disse que parece uma "perseguição" já que as "provas que comprovaram atuação lícita e legítima são subitamente desconsideradas e refeitas, na tentativa de amparar artificiosa incriminação".

Queiroz foi denunciado junto com o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) em outubro do ano passado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa devido ao caso da "rachadinha" na Alerj.

Em abril, ele pediu à Polícia Militar uma inspeção de saúde para poder adquirir uma arma de fogo. Ele estava preso até março, mas o Superior Tribunal de Justiça autorizou que ele responda ao processo em liberdade.

Tiros para confirmar

A hipótese de execução ganhou força depois que o perito Nelson Massini foi ouvido pela polícia e avaliou o laudo cadavérico de Anderson Rosa, que sofreu tiros no crânio, tórax e abdômen.

No depoimento, Massini disse que "se o primeiro disparo foi pela frente, como se imagina numa situação de confronto, os dois pelas costas foram de confirmação. Outra hipótese, se os tiros pelas costas foram os primeiros, o que contraria a posição de confronto, o tiro na região mamária foi confirmatório. Um dos disparos tem um trajeto inclinado revelando que a vítima está inclinada ou no solo".

Os fuzis só foram entregues para o confronto balístico no fim do ano passado. O laudo feito pelo ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli) não achou compatibilidade entre as armas e os projéteis encontrados na cena do crime.

Segundo o MP-RJ, esse dado aponta que os disparos que mataram Rosa foram desferidos por "arma de calibre menor de uso da corporação e ou 'até mesmo de armas de fogo sem registro (extraoficiais)'". A coluna apurou junto a investigadores de que há suspeita de que tenha sido usada uma arma ilegal no crime.

Para elucidar a questão, um dos novos pedidos do MP-RJ para a polícia é de que faça a apreensão de todas as armas que estavam com os policiais que integraram a patrulha naquela noite para também fazer a perícia e confronto balístico.

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O policial militar Fabrício Queiroz
Imagem: 26.dez.2018 - Reprodução/SBT

O crime

A morte de Anderson Rosa ocorreu na madrugada do dia 15 de maio de 2003 — quatro anos antes de Queiroz se tornar assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, na na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio).

Na versão dos militares, a viatura de cinco policiais patrulhava a Cidade de Deus na madrugada do dia 15 de maio de 2003 e teria "encontrado um grupo de pessoas supostamente armado" e que teria "efetuado disparos de arma de fogo", o que fez com que os policiais disparassem também.

Depois do suposto confronto, os policiais disseram ter encontrado o corpo de Anderson Rosa junto a uma "bolsa preta". Apesar de terem declarado que ocorreu um tiroteio, Queiroz e Adriano disseram que só os dois atiraram, os outros três policiais não. Queiroz e Adriano levaram o corpo de Rosa para o Hospital Cardoso Fontes, alegando uma tentativa de socorro. No entanto, ele deu entrada na unidade já sem vida.

"Bonde do Madruga"

A viúva de Anderson Rosa prestou depoimento para a polícia, pela primeira vez em 18 anos, em março deste ano. No depoimento, ela disse que o marido já tinha trabalhado com diferentes serviços gerais, mas estava desempregado na época em que morreu e admitiu que ele trabalhava para o tráfico, mas, segundo ela, não tinha armas. Ele não tinha, até o dia do crime, segundo a polícia, nenhum registro criminal.

A viúva disse que Adriano e Queiroz eram conhecidos como "bonde do madruga" em razão do "terror que criavam aos moradores, sempre nas madrugadas". Além disso, eram temidos pela fama de uso de "violência excessiva".

Ela disse que, no dia em que o marido morreu, estava indo trabalhar quando foi abordada pela guarnição comandada por Adriano da Nóbrega e Queiroz e que os policiais jogaram os pertences dela no chão e depois "perguntaram se ela iria trabalhar ou iria para o 'puteiro'".

Horas depois, quando soube da morte do companheiro, ela foi ao local e ouviu de uma moradora que Anderson Rosa tentou fugir da abordagem dos policiais, mas foi alcançado por Adriano e Queiroz. Depois de capturado, eles teriam colocado "Anderson ajoelhado e efetuado um disparo de arma de fogo na nuca". O relato é compatível com o tiro no crânio.

Segundo ela, depois da morte, a guarnição de Adriano e Queiroz chegou a passar na frente da Associação de Moradores, onde ocorreu o velório, e "zombaram dos familiares e amigos que o velavam".

Adriano morreu em fevereiro do ano passado após uma operação policial na Bahia. Ele era foragido da Justiça há mais de um ano e apontado como o líder do Escritório do Crime, milícia que atua na região de Rio das Pedras.

Leia a nota da defesa de Queiroz

"Soa, no mínimo, estranha a notícia de reviravolta na investigação de fato ocorrido há cerca de 18 anos. Em um piscar de olhos, todas as provas que comprovaram atuação lícita e legítima são subitamente desconsideradas e refeitas, na tentativa de amparar artificiosa incriminação, atuação que acaba por subverter a atividade investigatória legítima em instrumento de odiosa perseguição".