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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em depoimento ao MP, ex-cunhada de Bolsonaro invoca direito ao silêncio

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

18/12/2021 04h00

A fisiculturista Andrea Siqueira Valle, ex-cunhada do presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ), atendeu a uma convocação para depoimento do MP-RJ (Ministério Público do Rio) no dia 7 de outubro, mas invocou direito ao silêncio ao ser questionada pela promotoria. Ela foi chamada para prestar esclarecimentos no caso que apura entrega ilegal de salários, conhecida como rachadinha, e a nomeação de funcionários fantasmas no gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

"Informada de seu direito ao silêncio, manifestou que no presente momento se reserva o direito de permanecer em silêncio", informou Andrea, sem seu depoimento. O pedido foi feito porque a defesa pediu acesso aos dados da quebra de sigilo bancária e fiscal, autorizada pela 1ª Vara Criminal Especializada da Capital em maio deste ano, e o juiz responsável ainda não analisou o pedido.

No depoimento ao MP, Andrea estava acompanhada do advogado Marco Túlio Éboli, que já atuou na defesa do ex-secretário de Saúde do Rio Edmar Santos, preso durante as investigações sobre desvios na Saúde durante a pandemia em 2020. A coluna procurou Éboli para saber detalhes da defesa de Andrea, mas o defensor informou que, devido ao sigilo imposto na investigação, ele não poderia comentar detalhes do caso.

A coluna também questionou como ocorreu a contratação e como Andrea está custeando a defesa já que ela está vivendo em Juiz de Fora, em Minas Gerais, e possui muita dificuldade financeira. Andrea está sem emprego fixo e vive de bicos como diarista e auxiliar de serviços gerais. O advogado disse que não poderia responder porque as informações fazem parte do sigilo profissional com sua cliente.

Gravações

Em julho, a coluna revelou uma série de gravações inéditas de Andrea, publicadas também no podcast UOL Investiga - A vida secreta de Jair, nas quais a fisiculturista admitiu que devolvia 90% de seu salário quando foi nomeada no gabinete de Flávio Bolsonaro, de 2008 a 2018. Ela é irmã de Ana Cristina Valle, segunda mulher do presidente Jair Bolsonaro e mãe de Jair Renan Bolsonaro.

Nos áudios, Andrea contou ainda que Jair Bolsonaro demitiu um irmão dela chamado André Siqueira Valle porque ele se recusou a devolver a maior parte do salário de assessor do então deputado federal. A fisiculturista foi a primeira dos 18 parentes da família Siqueira-Valle que foram nomeados em um dos três gabinetes da família Bolsonaro (Jair, Carlos e Flávio) em algum momento de 1998 a 2018.

Apesar das nomeações, Andrea foi funcionária fantasma da família Bolsonaro por 20 anos. Primeiro, ela também constou como assessora de Jair Bolsonaro de 30 de setembro de 1998 a 7 de novembro de 2006. Depois, ela foi para a Câmara de Vereadores do Rio em 8 de novembro de 2006 e lá permaneceu até setembro de 2008. Depois disso, foi nomeada no gabinete de Flávio Bolsonaro onde permaneceu até agosto de 2018. No último ano em que esteve nomeada, o salário bruto da Andrea era de R$ 7.326,44, fora os benefícios recebidos.

Além do caso de Carlos, Andrea também é um dos alvos da investigação no caso do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ela também teve o sigilo bancário e fiscal quebrado a pedido do MP-RJ, anteriormente. Segundo o MP, ela recebeu líquido entre 2008 e 2018, período de nomeação só na Alerj, um total de R$ 674,9 mil. Desse total, ela sacou no período 98%, o que equivale a R$ 663,6 mil. Os dados dessa quebra, porém, foram anulados em fevereiro pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

No caso de Carlos, Andrea é uma investigada em um dos seis grupos que, para o MP, configuram uma possível organização criminosa. Ana Cristina foi chefe de gabinete entre 2001 e 2008, período da nomeação de André. Por isso, ela também é investigada como uma das operadoras do esquema.

Irmão demitido

Em um trecho das gravações, a fisiculturista contou que o produtor de eventos André Siqueira Valle, um dos irmãos de Ana Cristina, foi exonerado do gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, em 2007, por não devolver o valor combinado. Antes disso, André estava nomeado no gabinete de Carlos Bolsonaro.

"O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6 mil, ele devolvia R$ 2 mil, R$ 3 mil. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'", disse Andrea.

Em outra ocasião, entre 2018 e 2019, Andrea então diz que tentou falar sobre a situação com a irmã, Ana Cristina, e com um tio chamado Guilherme Hudson, ex-colega de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). A fisiculturista ainda disse que chegou a fazer contato com o gabinete de Flávio Bolsonaro, mas ninguém quis atendê-la.

"Porque assim, eu procurei a Cristina, o tio, liguei para o gabinete do Flávio para saber o que tinha que fazer, fiquei com medo de complicar as coisas para eles, ainda pensei neles", afirmou Andrea, nas gravações. Em seguida, confessou: "Na hora que eu estava aí fornecendo também e eles estavam me ajudando porque eu ficava com mil e pouco e ele ficava com sete mil reais, então assim, certo ou errado agora já foi, não tem jeito de voltar atrás", contou Andrea a um interlocutor.

André é o irmão caçula de Ana Cristina e Andrea. O produtor de eventos constou como assessor do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foram dois períodos. O primeiro entre agosto de 2001 até fevereiro de 2005. Um ano depois, em fevereiro de 2006 ele foi novamente nomeado no gabinete do "02" e lá ficou até novembro do mesmo ano.

No dia 10 de novembro de 2006, André passou a integrar a lista de funcionários do gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara de Deputados. A exoneração do gabinete de Carlos ocorreu dois dias antes, em 8 de novembro de 2006. O salário bruto dele na Câmara dos Deputados era de R$ 6.010,78. Ele ficou lá até outubro de 2007. Apenas nos últimos 15 dias, ele teve uma redução desse valor e recebeu a metade. Na época da nomeação, ele vivia no Rio de Janeiro e chegou a morar com Bolsonaro e Ana Cristina. Hoje ele vive em Volta Redonda, no sul do estado do Rio de Janeiro.

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