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Trump volta a apostar na estratégia de lei e ordem que deu errado em junho

22.jul.2020 - Prefeito de Portland, Ted Wheeler, reagindo após ser exposto a bomba de gás lacrimogêneo durante protesto - Nathan Howard / Getty Images
22.jul.2020 - Prefeito de Portland, Ted Wheeler, reagindo após ser exposto a bomba de gás lacrimogêneo durante protesto Imagem: Nathan Howard / Getty Images
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

23/07/2020 10h59

O presidente Donald Trump voltou a apostar numa estratégia arriscada que se mostrou negativa para a sua popularidade durante os protestos de maio e junho: usar tropas federais para reprimir manifestantes e policiar grandes cidades americanas.

Trump enviou tropas do Departamento de Segurança Interna para Portland, no estado do Oregon. Agentes já estariam de prontidão em Chicago, no Illinois. O presidente americano ameaçou mandar agentes para a Filadélfia (Pensilvânia), Detroit (Michigan) e Nova York. Todos esses municípios são governados por democratas e apresentaram dados recentes de crescimento da violência urbana.

Em Portland, agentes federais usaram gás lacrimogêneo nesta quarta-feira contra manifestantes e o prefeito da cidade, Ted Wheeler. Segundo Wheeler, que criticou Trump, os agentes federais criaram tensões e agravaram o problema.

Governadores e prefeitos que entraram na mira de Trump ainda não solicitaram ajuda federal. Todos consideram ilegal a intenção da Casa Branca.

A prefeita de Chicago, Lori Lightfoot, afirmou que Trump "luta por sua sobrevivência", politizando a segurança pública a fim de tentar se reeleger. Em entrevista à rede de TV CNN, ela afirmou que não admitirá o uso de "agentes federais secretos" para prender cidadãos em Chicago.

O movimento de Trump faz parte da estratégia de se apresentar como o presidente "da lei e da ordem", buscando recuperar votos entre eleitores conservadores que migraram para o democrata Joe Biden, que hoje lidera as pesquisas sobre a eleição de 3 de novembro.

Trump deu início nesta semana a uma mudança de estratégia eleitoral. Após três meses, ele retomou os briefings na Casa Branca com um figurino menos agressivo. Fez pronunciamentos e respondeu a perguntas de jornalistas num tom mais moderado e realista, apesar de repetir mentiras e distorcer dados sobre a pandemia e a sua gestão da crise sanitária.

Em entrevista à CNN, o prefeito de Nova York, Bill de Blasio, disse que era "inconstitucional" o envio de tropas federais sem requisição das autoridades locais. O prefeito afirmou que recorrerá à Justiça para barrar a ação desses agentes se eles pisarem em Nova York.

Em 1º de junho, Trump ordenou o uso de tropas federais para reprimir manifestantes em frente à Casa Branca, abrindo espaço na praça Lafayette para fazer uma foto com uma Bíblia na Igreja de São João. Na época, a repressão contribuiu para a queda da popularidade do republicano.

Os EUA são uma república federativa na qual os estados e municípios têm maior autonomia em relação à União na comparação com o Brasil, por exemplo. A segurança pública é tarefa dos municípios e dos estados. A ação repressiva federal em junho foi criticada por políticos, jornalistas e militares, sendo comparada ao modo como agiriam ditadores de repúblicas de bananas. Daí o risco de o movimento trumpista virar um tiro pela culatra.

Trump quer usar tropas federais para combater o aumento da criminalidade em cidades governadas por prefeitos do Partido Democrata, como Ted Wheeler, Lori Lightfoot e Bill de Blasio. O presidente difunde a ideia de que esses políticos democratas são fracos na segurança pública e agem de modo proposital para prejudicar os republicanos nas eleições.

No mês de junho, houve crescimento de 130% em tiroteios na cidade de Nova York na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo o departamento de polícia local, também aumentaram assassinatos (30%), assaltos (118%) e roubo de carros (51%).

Bill de Blasio disse que esses dados se devem à pandemia, que tornou mais difícil o trabalho da polícia. O prefeito disse acreditar que a alta seja passageira.

Trump tira proveito político das estatísticas para adotar uma reação dura, mas há críticas de que o uso de tropas federais para reprimir manifestantes e fazer policiamento abra um precedente autoritário de intervenção federal nos estados e nas cidades americanas.

Essa estratégia tende a aprofundar divisões políticas nos Estados Unidos. Isso deu certo para Trump em 2016, mas há uma pandemia no meio do caminho. Os casos devem ultrapassar a marca dos quatro milhões nesta quinta-feira. Estados do sul e do oeste sofrem estresse da rede hospitalar com mais internações. Há crescimento localizado de taxas de mortalidade por covid-19.

Nesse contexto, a estratégia de "lei e ordem", algo diversionista, talvez não seja eficiente nas eleições de 2020. O coronavírus parece ser um problema maior para os eleitores americanos do que as estatísticas de segurança pública em algumas grandes cidades do país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.