PUBLICIDADE
Topo

Trump ameaça processar Nevada, 8º estado a aprovar 100% de voto via correio

Presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca -
Presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

03/08/2020 10h54Atualizada em 04/08/2020 07h50

O presidente Donald Trump ameaçou ir à Justiça contra a decisão do Poder Legislativo do estado de Nevada que prevê 100% da votação via correio. O estado decidiu enviar cédulas a todos os eleitores por meio do serviço postal.

Nevada é o oitavo dos 50 estados americanos a permitir que todos os eleitores votem pelo correio. A maioria dos estados mescla essa modalidade com a votação presencial, que pode ser antecipada ou na data das eleições (3 de novembro).

Em tuíte na manhã desta segunda-feira, Trump classificou de "golpe tarde da noite" a decisão do Legislativo de Nevada, tomada no domingo. Segundo o presidente, os democratas estão "usando a covid para roubar o estado" e impedir a vitória dos republicanos. "Vejo vocês na Justiça", bradou na rede social.

Trump vem atacando há meses a possibilidade de votar pelo correio, uma das modalidades no sistema eleitoral americano. Cada um dos 50 estados possui as suas próprias regras eleitorais. A pandemia de coronavírus tem estimulado estados a aumentar a cota de votos pelo correio e também a incrementar o comparecimento físico antecipado a uma seção eleitoral. Numa pandemia, são maneiras de diminuir filas e aglomerações no dia das eleições.

Além de Nevada, os estados da Califórnia e Vermont decidiram enviar cédulas a todos os eleitores registrados para votar. Colorado, Havaí, Oregon, Utah e o estado de Washington já têm tradição nesse tipo de voto.

Na última semana, Trump subiu muito o tom contra o voto postal. Ele chegou a sugerir na semana passada que as eleições de 3 de novembro fossem adiadas, o que gerou reações contrárias até no Partido Republicano.

A data das eleições é fixada por lei do Congresso americano. Com maioria democrata na Casa dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil, não há chance de mudança. Tampouco os republicanos, com maioria no Senado, desejam a alteração. Nem durante a Guerra Civil (1861-1865) ou na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) houve adiamento da eleição.

Além da disputa presidencial, haverá eleições para os governos de 11 Estados e dois territórios, um terço do Senado e todas as 435 vagas na Câmara dos Representantes.

Os ataques de Trump ao voto via correio soam como uma desculpa antecipada para uma eventual derrota. As pesquisas mostram dianteira consistente do democrata Joe Biden no voto nacional e nos estados decisivos para obter maioria no Colégio Eleitoral.

Mas essas críticas enfraquecem a credibilidade do sistema eleitoral e, por consequência, a democracia americana. É cada vez maior o debate público sobre a forma autoritária como Trump exerce a Presidência e os danos que isso causa às instituições do país.

Em entrevista recente à rede de TV Fox News, o presidente não se comprometeu a aceitar o resultado da eleição _uma tradição americana é o perdedor reconhecer o veredito das urnas. Mas Trump disse na semana passada que poderia até questionar o resultado na Justiça, no contexto dos ataques ao voto via correio. Apesar da tradição de lisura nesse tipo de voto, Trump diz que a modalidade propiciará enormes fraudes.

A atitude presidencial faz parte de uma estratégia diversionista para não enfrentar o principal problema real do país: o coronavírus. A resposta do republicano à pandemia é reprovada por dois terços dos americanos, indicam as pesquisas. A crise sanitária vem se agravando nos EUA.

Trump em choque com cientistas

No fim de semana, em entrevista à rede de TV CNN, a coordenadora da força-tarefa da Casa Branca para combater a covid-19, a médica Deborah Birx, afirmou que os EUA entraram numa nova fase da pandemia, mais abrangente e grave do que na primavera. Agora, que é verão no Hemisfério Norte, Birx disse que o coronavírus se espalhou por centros urbanos e rurais por todo o país.

Nesta segunda, Trump deu um puxão de orelhas em Birx no Twitter. Disse que ela "mordeu a isca" após ter sido criticada pela presidente da Câmara dos Representante, a democrata da Califórnia Nancy Pelosi. Segundo Trump, ao admitir que a pandemia se agravou, Birx atirou no próprio governo. "Patético", escreveu na rede social.

O médico Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, também voltou a entrar na mira de Trump no Twitter. No domingo, o presidente disse que Fauci errou ao dizer no Congresso que a quarentena mais eficiente da União Europeia foi a responsável pela diferença de casos na comparação com os Estados Unidos, número um no planeta.

Num quadro sanitário que dinamita a estratégia eleitoral de Trump, resta a ele se apoiar em teorias conspiratórias ou na simples mentira, como afirmar que os EUA lidam com a pandemia melhor do que países europeus. Os números apontam justamente o contrário.

Entrar em choque com cientistas da força-tarefa da Casa Branca não parece ser um caminho eleitoral inteligente. As pesquisas mostram que os americanos confiam muito mais em Fauci e Birx do que em Trump quando se trata da pandemia.

CORREÇÃO:

Errata: o texto foi atualizado
Nevada é o oitavo e não o sétimo estado americano, como publicado inicialmente, a oficializar a possibilidade de todos os eleitores votarem pelo correio. Cinco estados já têm essa tradição, apesar de manterem algumas seções eleitorais abertas para quem prefere comparecer fisicamente. São Colorado, Havaí, Oregon, Utah e o estado de Washington. Recentemente, Califórnia e Vermont também adotaram a possibilidade de todos os eleitores votarem pelo correio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.