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Kennedy Alencar

'Trump é presidente errado para EUA', diz Michelle Obama, em ataque inédito

Michelle Obama no documentário da Netflix Minha História - Reprodução/Netflix
Michelle Obama no documentário da Netflix Minha História Imagem: Reprodução/Netflix
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

18/08/2020 00h29

A ex-primeira-dama Michelle Obama mandou bala de forma inédita numa campanha eleitoral americana. "Donald Trump é o presidente errado para o nosso país", disse, ao discursar em defesa da eleição do democrata Joe Biden na abertura da Convenção Nacional Democrata, na noite desta segunda.

Nos EUA, ex-presidentes não têm o hábito de criticar os sucessores. Tampouco ex-primeiras-damas. Mas Michelle Obama, com alta popularidade entre os americanos, fez um duríssimo discurso contra Trump.

Lembrou que ele divide o país, perdeu no voto popular em 2016 e não está à altura do cargo. Após dizer que Trump era o presidente errado para os EUA, Michelle afirmou que "ele teve todo o tempo para provar que poderia fazer o trabalho", mas essa missão estaria além da capacidade do republicano. "Se temos alguma esperança de acabar com esse caos, temos de votar por Biden como se nossa vida dependesse disso."

"Ele [Trump] não está à altura do momento. Ele simplesmente não consegue ser o que precisamos que fosse por nós. É o que é", disse a ex-primeira-dama. Segundo ela, "o que está acontecendo neste país não é correto, não é o que a gente quer ser". Michelle alertou os americanos sobre o risco de reeleger Trump: "Se você pensa que as coisas não podem piorar, confie em mim. Elas podem e vão piorar, se nós não fizermos uma mudança nesta eleição".

"Ser presidente não muda o que você é. Revela o que você é", afirmou Michelle. Ela disse que solução não seria baixar o nível, mas elevá-lo ("go high", em inglês). Ela pediu que os eleitores votassem como fizeram em 2008 e 2012 ao eleger seu marido, Barack. Fez apelo para que a base democrata vote de modo antecipado, vote por correio e vote no dia das eleições, em 3 de novembro. Como votar é facultativo nos EUA, mobilizar eleitores é fundamental para vencer.

Michelle mencionou tragédias pessoais que marcaram a vida de Joe Biden, como a perda da primeira mulher e de dois filhos. Disse que Biden tem uma vida que o habilita a ser presidente, inclusive por não ser perfeito e admitir isso.

Na imprensa americana, analistas se surpreenderam com o tom de Michelle. Wolf Blitzer, veterano da CNN, disse que nunca viu uma ex-primeira-dama bater tão duro num presidente em exercício.

Divisão do país

Além da força do discurso da ex-primeira-dama, a abertura da Convenção Nacional Democrata apostou em outras duas armas: o depoimento de uma filha, Kristin Urquiza, que perdeu o pai para a covid-19 porque ele acreditou nas mentiras que o presidente falava do coronavírus, e a estratégia de carimbar o atual presidente como alguém que divide o país. Essa tarefa ficou a cargo de republicanos, o que deu credibilidade ao ataque. O respeitado ex-governador de Ohio John Kasich, que é republicano, deu o seu recado junto com simples eleitores do partido.

Em vários momentos, Biden também foi apresentado como um político empático, cujas tragédias pessoais forjaram um líder preocupado com as pessoas e ideal para unir um país dividido.

O senador Bernie Sanders disse que "não é normal" e que não pode ser admitida a forma como Trump sugere que não aceitará o resultado das eleições. O republicano enfraquece a democracia americana, afirmou. Segundo ele, Trump não ameaça só democracia, mas a vida dos americanos ao negar a ciência em plena pandemia.

Sanders, senador e nome da esquerda democrata que desistiu de candidatura cedo e fortaleceu o moderado Biden, evitou divisão no partido, ao contrário do que aconteceu na convenção de 2016, quando Hillary Clinton foi a escolhida. O senador pregou união entre progressistas, moderados e conservadores para derrotar o atual presidente.

Em linha geral, os discursos bateram num ponto que desgasta Trump, o de que ele divide o país e estimula a barbárie. Isso tem repercussão, porque há certa exaustão com o estilo arrogante do republicano, que vive criando crises. Essa linha agrada setores progressistas que querem mudanças, sobretudo negros.

Moderado, Biden declarou que a maioria dos policiais é boa e que a minoria precisa ser responsabilizada por abusos. Errou. Há uma cultura de brutalidade policial nos EUA e no Brasil. O problema é estrutural. Não são maçãs podres no cesto. O cesto está podre.

Mas Biden é um moderado que faz sinal para eleitores conservadores. A convenção adotou tom moderado para rebater a crítica de Trump de que o ex-vice-presidente de Obama será uma "marionete" da esquerda radical.

A Convenção Democrata estava tão virtual que a atriz Eva Longoria, principal apresentadora, falou de Los Angeles, Califórnia, na Costa Oeste. Os delegados estão reunidos em Milwaukee, Wisconsin, no Meio-Oeste. Por causa da pandemia, Biden e principais estrelas democratas decidiram fazer discursos via Internet, muitos transmitidos da Costa Leste.

Entre os oradores, um dos destaques foi Andrew Cuomo, governador de Nova York, que lidou com sucesso contra a covid-19. Ele tem credibilidade para bater em Trump quando o tema é a pandemia. "Covid é só uma metáfora", disse Cuomo, sugerindo que EUA estão doentes. Afirmou que a divisão americana enfraquece o corpo, o país. "A divisão [no país] criou Trump. Ele só a fez pior", disse, com razão.

Num formato pandêmico, a convenção funcionou como um bom programa eleitoral para os democratas. O encontro vai até quinta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.