PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

Tragédias familiares marcam vida do moderado Biden, favorito contra Trump

3.mar.2020 - O ex-vice-presidente Joe Biden durante evento da Superterça em Los Angeles - Frederic J.Brown/AFP
3.mar.2020 - O ex-vice-presidente Joe Biden durante evento da Superterça em Los Angeles Imagem: Frederic J.Brown/AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

16/08/2020 04h04

Tragédias marcam a vida de Joe Biden, um político moderado de 77 anos que será o candidato do Partido Democrata à Casa Branca nas eleições de 3 de novembro.

Em 18 de dezembro de 1972, Biden perdeu a primeira esposa, Neilia, e a filha mais nova, Naomi Christina, que tinha apenas 13 meses. Enquanto estava em Washington, ele recebeu um telefonema relatando que um caminhão batera no carro da mulher, que saíra com os filhos para fazer compras de Natal. Os outros dois filhos do casal, Beau e Hunter, sobreviveram. A suspeita de que o motorista do caminhão estivesse bêbado nunca foi confirmada, mas assombrou Biden durante anos.

"Pela primeira vez na vida, entendi como alguém pode decidir conscientemente cometer suicídio. Não porque eles estavam loucos, mas porque eles estiveram no topo da montanha e simplesmente sabiam em seus corações que nunca mais chegariam lá", diria anos depois.

Para cuidar de Beau e Hunter, ele pensou em renunciar ao mandato de senador que acabara de conquistar, mas decidiu tomar posse. Com apenas 30 anos, entrou para a História como o sexto senador mais jovem do país. De trem, viajava durante três horas para ir ao Congresso em Washington e voltar para casa em Wilmington, no estado de Delaware, a fim de colocar os dois filhos pequenos na cama.

Biden conta que as mortes da esposa e da filha o levaram a oscilar entre a raiva e a religiosidade. Optou pela segunda e reconstruiu sua vida. Conheceu Jill Tracy Jacobs em 1975 e se casou com ela 17 de junho de 1977. "Ela me devolveu a vida. Ela me fez começar a pensar que minha família poderia ficar inteira novamente." O casal Joe e Jill tem uma filha, Ashley Blazer, hoje com 39 anos de idade.

Quarenta e dois anos depois, ele viveria outra tragédia familiar. O filho mais velho, Beau, morreu de câncer no cérebro em 30 de maio de 2015. Beau era o filho que tinha mais afinidade com o pai, além de uma promissora carreira política pela frente. O primogênito, que fora procurador-geral de Delaware, era favorito para se eleger governador do estado.

Quedas e superações fazem parte da trajetória pessoal e política do democrata, nascido Joseph Robinette Biden Jr. em 20 de novembro de 1942, na cidade de Scranton, na Pensilvânia. Ele é o filho mais velho de uma família católica. Tem uma irmã e dois irmãos. A mãe, Catherine, tinha ascendência irlandesa. O pai, Joseph, era descendente de ingleses, franceses e irlandeses.

Joe Biden visita memorial de veteranos para marcar o feriado do Memorial Day - CARLOS BARRIA - CARLOS BARRIA
Joe Biden visita memorial de veteranos para marcar o feriado do Memorial Day
Imagem: CARLOS BARRIA

Oito anos como vice de Barack Obama

A família Biden se mudou em 1953 para Delaware, onde ele virou advogado e começou a carreira política se elegendo vereador do condado de New Castle em 1970.

Entre os sucessos de Joe Biden, contam-se os seis mandatos consecutivos como senador por Delaware e os oito anos como vice-presidente do primeiro negro a chegar à Casa Branca, Barack Obama.

Nos fracassos, estão duas tentativas de se candidatar à Presidência. Perdeu a indicação democrata em 1988 para Michael Dukakis, que governou o estado de Massachusetts, e em 2008, quando o escolhido foi Obama, seu colega no Senado.

O caminho para virar candidato a presidente em 2020 se revelou tortuoso. No ano passado, o Partido Democrata chegou a ter 27 pré-candidatos à Casa Branca. A disputa afunilou ao longo de 2019, mas ainda havia 11 postulantes em janeiro deste ano.

De carta fora do baralho a candidato democrata

Biden foi mal nas prévias partidárias de Iowa, New Hampshire e Nevada. Parecia carta fora do baralho até conseguir virar o jogo nas primárias da Carolina do Sul no fim de fevereiro, quando eleitoras negras democratas lhe deram vitória esmagadora. A partir daí, os oponentes internos desistiram em série em benefício do mais moderado e experiente democrata.

Kamala Harris foi anunciada como vice-presidente de Joe Biden em corrida eleitoral nos EUA - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Kamala Harris foi anunciada como vice-presidente de Joe Biden em corrida eleitoral nos EUA
Imagem: Reprodução/Instagram

"As pessoas estão perdendo a fé no que o presidente fala", afirma Biden, ao criticar as frequentes mentiras e distorções de Trump sobre a pandemia, o voto pelo correio e os adversários políticos. O democrata se oferece como uma opção segura para eleitores conservadores moderados que votaram em Trump em 2016 porque rejeitavam Hillary Clinton.

É justamente essa moderação política que torna Biden o candidato mais competitivo para enfrentar o presidente republicano Donald Trump, que tem 74 anos e tenta a reeleição.

Biden não é um grande orador nem possui o carisma de Obama. Mas o seu jeito de boa gente abre portas. Ele foi fundamental para ajudar Obama a aprovar projetos no Congresso e a resolver questões delicadas em política internacional. As dores pessoais também teriam forjado um político empático e mais humano, um tremendo contraste com o estilo arrogante e agressivo de Trump.

Biden esteve na posse de Dilma Rousseff

Com atuação destacada no comitê de Relações Exteriores do Senado, Biden conhece bem a América Latina. Foi enviado como representante dos Estados Unidos para a posse de Dilma Rousseff em 1º de janeiro de 2015.

Se eleito, o Brasil terá alguém na Casa Branca que sabe que a sua capital não é Buenos Aires. Também haverá cobrança de um governo democrata em relação à desastrosa agenda ambiental e de direitos humanos do presidente Jair Bolsonaro.

Na arena internacional que tanto conhece, surgiu um caso envolvendo um familiar que lhe trouxe desgaste político. O filho Hunter ocupou vaga no conselho de administração de uma empresa ucraniana, a Burisma, entre 2014 e 2019. No posto, Hunter teria usado a relação paterna para fazer lobby e ganhar dinheiro, o que ele sempre negou.

Joe Biden foi acusado por Trump de proteger o filho, misturando assuntos de Estado com interesses privados da Burisma. As acusações nunca foram provadas.

Acusações de assédio sexual

O democrata também não escapou de sofrer acusações de assédio sexual. Em 2019, oito mulheres apresentaram queixas nesse sentido. Uma delas, Tara Read, ex-assessora no Senado, acusou o antigo chefe de tê-la tocado intimamente num corredor do Congresso americano.

O candidato democrata sustenta que Reade mudou suas versões e que sua história seria falsa. Pediu "responsabilidade" à imprensa americana ao relatar o caso em tempos do movimento "Me Too".

"Reconheço minha responsabilidade de ser uma voz, um defensor e um líder da mudança de cultura que começou, mas está longe de terminar. Quero abordar as acusações de uma ex-funcionária de que tive má conduta há 27 anos. Elas não são verdadeiras. Isso nunca aconteceu", respondeu Biden, em maio, após um período de silêncio criticado até por seus aliados.

Biden se descreve como um "político tátil", que toca as pessoas ao interagir. "A política para mim sempre teve a ver com se conectar, mas estarei mais atento para respeitar o espaço pessoal no futuro. É minha responsabilidade, e a cumprirei."

31.mai.2013 - A presidente Dilma Rousseff recebe Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, no Palácio do Planalto, em Brasília. Após cerca de uma hora e meia de reunião, Biden afirmou que "não há qualquer obstáculo" que os Estados Unidos e o Brasil não possam superar. O vice-presidente anunciou na quarta-feira (30) que Dilma realizará uma visita de Estado a Washington em outubro, algo que os Estados Unidos esperam que marque o início de uma nova era nas relações com o Brasil e a região - Divulgação/Presidência da República - Divulgação/Presidência da República
31.mai.2013 - A presidente Dilma Rousseff recebe Joe Biden, vice-presidente dos EUA, no Palácio do Planalto
Imagem: Divulgação/Presidência da República

Apesar da demora em se manifestar, as explicações de Biden arrefeceram a cobertura na imprensa sobre o tema. Na comparação com denúncias semelhantes feitas em relação a Trump, as acusações contra Biden parecem carecer de provas mais consistentes. O presidente americano tem longo histórico de agressões sexuais e de erros de conduta em relação a mulheres.

Propostas focadas nos mais pobres e numa economia verde

A principal proposta de Biden é ter uma política econômica mais inclusiva, com retomada de programas habitacionais para os mais pobres e maior cobrança de impostos dos mais ricos. Promete investimentos de mais de US$ 2 trilhões numa economia verde e sustentável, com foco em tecnologia e energia.

Defende um grande programa de obras de infraestrutura e o estímulo à compra de produtos feitos nos Estados Unidos. Também deverá jogar duro com a China do ponto de vista comercial, mas buscando uma liderança que atraia aliados e fuja do isolacionismo dos anos Trump do ponto de vista global.

Em relação à Rússia, deverá haver uma guinada. Biden pretende reatar boas relações com líderes europeus que são hostilizados por Trump, o que alegra geopoliticamente o presidente Vladimir Putin. Biden prega a volta dos EUA ao Acordo de Paris, do qual o republicano retirou o país.

Na cena externa, ele planeja refazer o acordo nuclear com o Irã, acerto do governo Obama dinamitado pelo atual presidente. Diz que retirará as tropas americanas no Afeganistão, movimento que Trump começou de forma mais ousada, negociando com o Taleban.

Aceno ao eleitorado negro, feminino e jovem

No contexto da pandemia, assumiu posição mais progressista em relação ao sistema de saúde. Promete criar um seguro de saúde acessível a todos os americanos, o que é uma demanda dos mais pobres que não conseguem arcar com os custos cobrados pelas seguradoras.

Biden se opõe ao corte de verbas para os departamentos de polícia. Essa é uma reivindicação de manifestantes que foram às ruas contra o racismo estrutural e a violência policial.

Quer eliminar a pena de morte e diminuir o alarmante encarceramento que atinge mais os negros do que os brancos. A escolha da senadora Kamala Harris para vice sinaliza compromisso com o eleitorado negro, feminino e jovem. Foi uma decisão acertada.

Se eleito, Biden assumirá a Presidência com 78 anos e será a pessoa mais velha chegar à Casa Branca. O democrata pode ser um presidente de um mandato só, de transição. Esse contexto coloca Harris como um possível nome para disputar a Presidência dos Estados Unidos daqui a quatro anos, em 2024.

Kamala Harris, candidata a vice, é filha de imigrantes

Senadora pela Califórnia e filha de imigrantes (mãe indiana e pai jamaicano), Harris tem 55 anos e representa uma geração de novos líderes do Partido Democrata. A Convenção Nacional que oficializará a chapa Biden-Harris acontecerá entre amanhã e quinta-feira em Milwaukee, Wisconsin.

Kamala Harris é a primeira mulher negra a disputar a Vice-Presidência por um partido grande. A professora e ativista do movimento negro Angela Davis concorreu duas vezes nos anos 80 como vice pelo Partido Comunista dos EUA, mas a votação da legenda é insignificante no país.

Biden faz história ao escolher Harris para companheira de chapa. Atende a anseios de setores da sociedade americana que foram às ruas contra o racismo estrutural e brutalidade policial num movimento que só pode ser comparado à luta pelos direitos civis nos anos 60. Com razão, ele afirma que a história americana sempre foi um duelo entre a selvageria e a civilização.

Um bordão de Biden é classificar sua candidatura como "uma luta pela alma dos Estados Unidos", dizendo que estão em jogo valores democráticos desprezados e solapados por Trump. Segundo ele, "esta eleição é sobre honra, dignidade".

Em duas aparições recentes de campanha, Biden e Harris demonstraram ter química e empatia. A dupla jogou afinada contra Trump e o vice-presidente Mike Pence, 61 anos. Biden busca reeditar com Harris a sincera parceria que teve com Obama. Os dois construíram uma amizade sólida, um "bromance" como se diz em inglês ao unir as palavras irmão (brother) e romance.

A disputa eleitoral nos EUA

A menos de três meses da eleição de 3 de novembro, Biden aparece como favorito nas pesquisas sobre o voto nacional e nos estados fundamentais para formar maioria entre no Colégio Eleitoral.

No entanto, não basta ganhar no voto popular para ser eleito nos EUA. Hillary Clinton derrotou Trump nas urnas, mas perdeu na disputa entre os 538 delegados do Colégio Eleitoral, que reflete o peso demográfico de cada um dos 50 estados e do Distrito de Columbia, onde fica a capital americana.

Nesse sistema eleitoral, importa ganhar nos estados certos. A pandemia tem desgastado Trump e fortalecido Biden nos estados fundamentais para conseguir pelo menos 270 votos (maioria absoluta) no Colégio Eleitoral. Hoje, as pesquisas sugerem placar de até 350 delegados para que Biden seja o 46º presidente americano.

Tem funcionado a estratégia democrata de deixar o principal tema da eleição ser um referendo sobre a resposta de Trump ao coronavírus. Segundo as pesquisas, dois terços dos americanos reprovam a forma como o presidente lida com a pandemia. Não é Biden que está ganhando, mas Trump que está perdendo.

O presidente pode virar o jogo? Pode, mas não parece provável. Cresceram as chances de alternância de poder na maior potência política, econômica e militar do mundo, o que teria efeitos civilizatórios para o planeta e o Brasil.