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Kennedy Alencar

Em livro, Trump confessa que mentiu a americanos sobre gravidade de vírus

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em coletiva na Casa Branca, em 7/09/2020 - Mandel Ngan/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em coletiva na Casa Branca, em 7/09/2020 Imagem: Mandel Ngan/AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

09/09/2020 14h16

O presidente Donald Trump sabia desde o fim de janeiro que o coronavírus era "mortal" e facilmente transmissível pelo ar, mas disse que ele "sempre minimizou" a covid-19 de propósito a fim de evitar "pânico" nos Estados Unidos.

Quem fez a revelação foi o próprio Trump em 18 entrevistas ao jornalista Bob Woodward, que relata as conversas com o presidente em seu novo livro "Rage" (Fúria, em inglês). Em parceria com o colega Carl Bernstein, Woodward publicou uma série de reportagens sobre o escândalo de Watergate, um histórico furo do jornal "The Washington Post" nos anos 70.

É a primeira vez que Trump admite que sabia da gravidade de coronavírus muito antes de decidir enfrentar mais duramente a pandemia, o que só aconteceria na metade de março. No fundo, ele confessa que mentiu à opinião pública americana.

No livro, Woodward revela que Robert O'Brien, conselheiro de segurança nacional, alertou Trump em 28 de janeiro sobre a gravidade da pandemia de coronavírus numa reunião ultrassecreta do serviço de inteligência no Salão Oval da Casa Branca: "Essa será a maior ameaça à segurança nacional que o sr. enfrentará em sua Presidência. (...) Essa vai ser a coisa mais difícil que o sr. enfrentará".

Dez dias depois da reunião com O'Brien, Trump falou por telefone com Woodward e admitiu que a crise sanitária era muito mais grave do que a forma como a abordava publicamente. "Você só respira e, assim, pega [o vírus]. É muito complicado. Muito delicado. Também é mais mortal do que uma gripe forte. (...) Essa coisa [o coronavírus] é mortal", disse Trump em 7 de fevereiro.

Nessa época e em muitos pronunciamentos depois, o presidente americano comparou a covid-19 à gripe comum. Procurou diminuir a gravidade da situação, chegando a prever em 27 de fevereiro que o vírus "milagrosamente" viria a desaparecer quando o calor chegasse na primavera e no verão. E só agiu de forma incisiva durante poucas semanas entre a metade de março e meados de abril, quando Trump começou a pressionar governadores para reabrir a economia nos estados.

Impacto na corrida eleitoral americana

A revelação do livro de Woodward deve causar forte dano eleitoral a Trump na reta final da campanha presidencial. De certa, cai por terra toda a estratégia do presidente para dizer que agiu corretamente em relação à pandemia. As provas de sua incompetência e negligência saíram da sua própria boca, afirmando que sempre quis minimizar a mais grave crise sanitária do planeta em um século. No fundo, Trump pensou que sua estratégia de negação seria o melhor caminho para a sua reeleição

Ao fazer uma avaliação sobre o combate à pandemia após conversas com suas fontes, Woodward diz que "Trump nunca pareceu disposto a mobilizar totalmente o governo federal e continuamente parecia empurrar os problemas para os estados". Segundo Woodward, "não havia uma teoria de gestão real do caso ou como organizar uma grande empresa para lidar com uma das emergências mais complexas que os Estados Unidos já enfrentaram".

A porta-voz de Trump, Kayleigh Mcenany, reagiu às revelações do livro em pronunciamento no início da tarde. Ela disse que Trump deixou claro nos comentários que fez com Woodward que sempre procurou "evitar o caos" e que disse que o governo estava tomando medidas efetivas contra a covid-19.

Mas o democrata Joe Biden ganhou um presente político a menos de dois meses das eleições de 3 de novembro. Trump admitiu que mentiu para os americanos ao combater a pandemia.

Em ato de campanha na tarde desta quarta-feira no estado do Michigan, Biden comentou as revelações de Woodward. O democrata afirmou que o presidente sabia da gravidade, mas, "de propósito, minimizou" o risco. "[Trump] Sabia e mentiu para o público americano. Falhou ao fazer o seu trabalho."

Se o presidente tivesse agido antes de meados março, disse Biden, ele teria salvo vidas, preservado empregos, evitado o fechamento das escolas por tanto tempo e diminuído o período de sacrifício dos trabalhadores essenciais e dos profissionais de saúde.

Protestos os EUA

No livro, Woodward também abordou os protestos raciais que explodiram nos EUA após a morte de George Floyd no fim de maio. Trump contou ao jornalista que continuaria a adotar sua política de "lei e ordem" depois de ter expulsado à força manifestantes que protestavam pacífica e legalmente na praça Lafayette em frente à Casa Branca no dia 1º de junho. "Vamos nos preparar para enviar os militares da Guarda Nacional para alguns desses pobres desgraçados que não sabem o que estão fazendo, esses pobres esquerdistas radicais", disse o presidente, que ligava para Woodward a fim de se gabar de suas decisões.

O livro de Woodward, que aborda questões raciais e diplomáticas, como a relação com a Coreia do Norte, acabou ganhando mais importância com a pandemia e os protestos de maio e junho nos EUA. A obra cobre um período de cerca de dois anos da administração Trump. É uma bomba política que está repercutindo fortemente no país.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.