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Kennedy Alencar

Luta por futuro do Judiciário dos EUA é prévia do que acontecerá no Brasil

Amor próprio é "um mini-protesto" em sociedade machista, diz Ocasio-Cortez - Reprodução/YouTube
Amor próprio é 'um mini-protesto' em sociedade machista, diz Ocasio-Cortez Imagem: Reprodução/YouTube
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

19/09/2020 11h51

Estrela jovem da esquerda do Partido Democrata, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, a AOC, fez um apelo para que os eleitores votem em Joe Biden em 3 de novembro a fim de "deixar nossa democracia viver mais um dia".

A fala de AOC, divulgada nas redes sociais, aconteceu no contexto da morte da ministra da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, que faleceu nesta sexta-feira, 18/09, em decorrência de um câncer no pâncreas. AOC se dirigiu especialmente aos eleitores que não costumam votar por descrença na democracia e nos políticos.

A deputada disse entender esse sentimento de decepção, mas afirmou: "Neste ano, nesta eleição, votar em alguém... votar em Joe Biden não é um voto sobre concordar com ele, é um voto para deixar nossa democracia viver mais um dia".

Ela prosseguiu: "Temos de agir para proteger, com solidariedade, os mais vulneráveis na nossa sociedade, aqueles que já experimentaram a violenta repercussão desse governo".

AOC tem razão. Ela, que apoiou o senador Bernie Sanders nas primárias democratas, não é fã do moderado Joe Biden. Mas entendeu o sentido da história e fez um apelo politicamente acertado por união contra Trump. Que sirva de exemplo à oposição brasileira.

A morte de Ruth Bader Ginsburg, uma progressista identificada com as causas femininas e questões sociais, abre uma vaga no Suprema Corte no fim do primeiro mandato de Donald Trump, que tenta a reeleição.

O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConell, já disse que a substituição deve ser votada ainda neste ano, apesar de ele ter liderado em 2016 um bloqueio a uma indicação de Barack Obama sob o argumento de que se tratava de um ano eleitoral.

Está em curso uma luta entre republicanos e democratas sobre o futuro da cúpula do Judiciário dos EUA. Trump deverá tentar indicar e aprovar um substituto. O candidato democrata, Joe Biden, já disse que a indicação deveria ser tratada pelo eleito para o próximo mandato.

Obama cobrou coerência dos republicanos. Em 2016, quando Anthony Scalia morreu em fevereiro, os republicanos bloquearam a indicação de Merrick Garland para substituí-lo. Se em fevereiro de um ano eleitoral prevaleceu o argumento de que o presidente de plantão não deveria indicar um ministro para a Suprema Corte, por que seria diferente permitir que Trump o fizesse com a vacância de uma vaga em setembro de outro ano eleitoral?

A luta para moldar um Judiciário mais conservador tem sido um objetivo comum de líderes populistas do mundo inteiro. Se os republicanos conseguirem consolidar uma maioria de 6 conservadores contra 3 liberais na Suprema Corte, haverá influência durante décadas.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro deverá fazer duas indicações para o Supremo Tribunal Federal, substituindo no seu mandato os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello.

Com a destruição institucional que tem levado a cabo no Brasil, Bolsonaro deverá nomear ministros conservadores de baixo nível, que é o padrão do seu governo. Nesse contexto, o que acontece nos EUA serve de lição aos brasileiros. A batalha americana é uma prévia do que acontecerá no Brasil. Deixar Bolsonaro no poder, apesar de seus inúmeros crimes de responsabilidade, terá efeito sobre o futuro do Judiciário no Brasil.

Nas redes sociais, ministros dos Supremo Tribunal Federal citaram a coragem e a coerência de Ruth Bader Ginsburg. De repente, ficamos sabendo que ela era a heroína de muitas personalidades brasileiras.

Além de democratas de pandemia, temos agora os valentes de biografia alheia. Vemos gente poderosa que contribuiu para a ascensão de Bolsonaro ao poder tentar se associar à biografia de Ruth Bader Ginsburg. Haja hipocrisia.

Essa gente se omitiu no Supremo Tribunal Federal e se comportou com covardia em momentos cruciais da nossa história. Essa gente ficou escondida atrás de suas penas e togas fazendo falsa equivalência nos últimos anos. Essa gente pavimentou o caminho para Bolsonaro chegar ao poder.

Talvez essa gente possa se inspirar de verdade em Ruth Bader Ginsburg, que deixou mensagem póstuma manifestando o desejo de que seu substituto seja indicado pelo próximo presidente eleito. Ela lutou até depois da morte. Que sirva de exemplo à elite brasileira.

Deixar Bolsonaro continuar a destruir o Brasil é para os fracos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.