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Vira-latismo de Bolsonaro tem preço; Biden seria só uma das dores de cabeça

O candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden - Reuters
O candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos, Joe Biden Imagem: Reuters
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

30/09/2020 16h43

A ameaça de Joe Biden ao Brasil só foi possível porque o governo Jair Bolsonaro rebaixou o país a pária global. O primeiro erro é um Estado nacional se aliar incondicionalmente a outro, abrindo mão da defesa dos seus interesses. Mas o segundo erro, mais grave ainda, é submeter os interesses de um Estado aos interesses de uma pessoa, como Bolsonaro fez com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Esse vira-latismo geopolítico tem consequências econômicas reais. Biden é só uma das dores de cabeça que aguardam o Brasil. O que é ruim tende a piorar com Bolsonaro no poder.

No debate com o republicano Trump, o democrata Biden afirmou na noite desta terça-feira que se reuniria com outros líderes mundiais para obter verba de US$ 20 bilhões a fim de preservar a Amazônia. Não deu detalhes se seria um dinheiro a fundo perdido ou uma linha de crédito.

Mas Biden foi claro num ponto: "Parem de destruir a floresta! E, se vocês não pararem, irão enfrentar consequências econômicas significativas". O democrata tratou o Brasil como se uma fosse uma república de bananas.

Em uma situação normal, isso causaria estranheza. Mas o Brasil de Bolsonaro virou uma república de bananas. O país tem uma democracia fragilizada.

Bolsonaro reagiu a Biden invocando uma suposta ameaça à soberania nacional. Disse que o país "não aceita mais subornos". Bolsonaro afirmou que seu "governo está realizando ações sem precedentes para proteger a Amazônia".

"Dinheiro de pinga"

Ora, o presidente brasileiro mentiu como de costume. O governo Bolsonaro está destruindo o patrimônio ambiental do Brasil, o que tem repercussões no clima global. Liberdade para destruir a Amazônia não é soberania. É crime de responsabilidade. Aliás, mais um dos muitos que Bolsonaro comete no cargo sob as barbas das nossas tíbias e omissas instituições.

Com um PIB (Produto Interno Bruto) hoje na casa de US$ 1,5 trilhão, é "dinheiro de pinga" o que Biden prometeu em verbas para a Amazônia se formos levar em conta a importância que o Brasil já teve e deveria ter no mundo.

Mas o Brasil não tem mais. Perdeu. Isolou-se da comunidade internacional com essa política externa submissa a Trump e com uma participação nos debates da ONU digna de fazer inveja a ditadores que perseguem minorias.

Com o dólar nas alturas, uma verba de mais de R$ 100 bilhões para a preservação ambiental não é desprezível. Não é disso que se trata. Esse dinheiro poderia ser muito bem-vindo.

Brasil: de bom exemplo a pária

O que chama atenção no episódio é Biden ameaçar explicitamente com retaliações comerciais um país que estava dando um bom exemplo de preservação ambiental até recentemente e que era levado a sério como modelo de combate à fome e à miséria. O Brasil tinha até políticas de saúde pública e de respeito às minorias que eram elogiadas nos fóruns internacionais.

Tudo isso se perdeu nos últimos anos. Bolsonaro é o coroamento de escolhas políticas equivocadas do país, com destaque para uma aliança nefasta entre moralistas sem moral da Lava Jato e autoritários de extrema-direita como Bolsonaro. A imprensa brasileira, que hoje bate no peito para defender a democracia, normalizou um golpe institucional contra Dilma e a quebra da lei para combater uma corrupção endêmica que foi tratada como doença exclusiva da esquerda.

Bolsonaro é resultado de um vale-tudo que jogou fora o peso geopolítico que o Brasil merecia ter. Bolsonaro é o que de pior poderia ter acontecido ao Brasil. Joe Biden sabe disso muito bem e deixou claro que, com ele, o governo Bolsonaro pagará o preço pela destruição de um patrimônio que é brasileiro, mas também mundial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.