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Kennedy Alencar

Ao mentir sobre fraude via correio, Trump estimula voto antecipado

Voto antecipado deve ser recorde nos EUA - Getty Images
Voto antecipado deve ser recorde nos EUA Imagem: Getty Images
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

19/10/2020 11h26

Ao difundir a teoria infundada de que haverá fraudes maciças na votação via correio, o presidente Donald Trump conseguiu dar um tiro no pé. Ajudou os democratas a mobilizar a sua base para votar antecipada e presencialmente, aumentando o comparecimento dos eleitores nesta fase da campanha.

A imprensa americana estima que quase 30 milhões de eleitores tenham votado antecipadamente até esta segunda, dia 19 de outubro. Em 2016, a duas semanas da eleição, cerca de 5 milhões de eleitores haviam adiantado a sua escolha. A previsão é que o comparecimento antecipado será recorde nesta eleição. A abstenção também deverá ser menor do que em pleitos passados.

O voto nos EUA não é obrigatório como no Brasil. Há quatros anos, os EUA tinham cerca de 250 milhões de pessoas com idade para votar. Cerca de 130 milhões de eleitores foram às urnas.

Em 2016, a base democrata não se mobilizou como agora. Parte ficou contrariada com a vitória de Hillary Clinton sobre Bernie Sanders na disputa interna e não se empenhou pela candidata do Partido Democrata. Outra parcela achou que Hillary venceria Trump facilmente.

A democrata ganhou no voto popular, mas perdeu em estados do meio-oeste por margem estreita, o que deu a vitória a Trump no Colégio Eleitoral por 306 a 232 votos. Na eleição indireta americana, é preciso obter, no mínimo, maioria absoluta (270) dos 538 delegados para conquistar a Casa Branca.

Em 2020, a história é diferente de 2016. A ex-primeira-dama, Michele Obama, tem feito campanha pelo voto antecipado, dizendo que os eleitores devem fazer sua escolha como se suas vidas dependessem disso. Com o ator Samuel L. Jackson, a campanha de Joe Biden tem uma propaganda que é repetida diversas vezes ao dia nas TVs pedindo que os eleitores votem antes de 3 de novembro.

Os pedidos estão surtindo efeito. O maior comparecimento de eleitores democratas às urnas tende, obviamente, a beneficiar o atual candidato do partido. É uma má notícia para Trump, que imaginou que, devido à pandemia, um contingente maior de pessoas preferiria votar pelo correio. Esse tipo de votação também deve ser recorde nos EUA, mas a ida física antecipada às seções eleitorais surpreendeu.

Diante da ameaça de Trump de que travará uma batalha jurídica para invalidar votos via correio, milhões de eleitores decidiram enfrentar filas para garantir que as suas escolhas sejas contadas. A grande maioria dos estados tem a votação presencial antecipada, abrindo algumas seções para o comparecimento físico dos eleitores. Em plena pandemia, os eleitores vêm enfrentando filas longas, de até oito horas na Geórgia, por exemplo, para depositar o seu voto. Decisiva no Colégio Eleitoral, a Flórida começa hoje a permitir a votação antecipada (early voting, em inglês).

Numa entrevista à rede de TV CBS, o principal infectologista do país, Anthony Fauci, disse que pretende votar presencialmente aos 79 anos de idade. Ele recomendou o voto pelo correio para as pessoas que se sintam mais vulneráveis.

Na entrevista, Fauci afirmou que só uma vontade de se mostrar forte explicaria por que Trump se recusa a usar máscara publicamente. Diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, Fauci é membro da força-tarefa de combate à covid-19 da Casa Branca. Muito popular, é considerado pelos americanos mais confiável do que Trump, o que incomoda o presidente, que vive alfinetando o médico.

Trump chegou a dizer que todo mundo sabia que Fauci seria um eleitor democrata. O médico, que serviu a seis presidentes americanos, negou. Disse que, devido ao serviço público, preferiu não atuar politicamente ao longo de sua carreira.

A briga de Trump com os cientistas chegou a um ponto irônico, no qual o presidente deu outro tiro no pé neste domingo durante um comício no estado de Nevada, quando, mais uma vez, falava para uma multidão sem máscara e sem distanciamento social.

Ao tentar dissuadir eleitores de optar pelo rival, Trump disse que Biden ouvirá os cientistas se virar presidente. "Se eu tivesse ouvido totalmente os cientistas, nós teríamos justamente agora um país que estaria em depressão massiva", disse o republicano.

A declaração de Trump repercutiu negativamente na imprensa. Soou como um atestado da sua resposta negligentemente homicida ao coronavírus, subestimando a pandemia e vendendo um cenário otimista inexistente. Ao mesmo tempo, a fala negacionista de Trump confirma que Biden se comporta como um líder responsável ao levar a pandemia a sério, ouvindo quem entende do riscado.

Os EUA caminham para uma tempestade perfeita de coronavírus. Quase 220 mil americanos já morreram de covid-19. Mais de 8 milhões se infectaram. Os casos voltaram a crescer no outono, aproximando-se dos 70 mil por dia. Há previsões de que, no inverno, o número diário de novos casos ultrapasse os 80 mil. Isso pode levar a um volume de internações que volte a dificultar o atendimento adequado aos doentes e elevar a taxa de mortalidade.

O comportamento irresponsável de Trump parece ter mobilizado boa parcela dos eleitores a marcar logo o seu voto para tirá-lo da Casa Branca. De acordo com as pesquisas, Biden continua favorito na reta final.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.