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Kennedy Alencar

Com fala dura contra Trump, Obama contraria neutralidade de ex-presidentes

Obama faz primeiro evento presencial em apoio à candidatura de Joe Biden - Michael M. Santiago / Getyy Images / AFP
Obama faz primeiro evento presencial em apoio à candidatura de Joe Biden Imagem: Michael M. Santiago / Getyy Images / AFP
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

21/10/2020 20h45

Barack Obama quebrou a tradição de ex-presidentes americanos de manter neutralidade política em relação aos sucessores. No discurso mais forte já feito por ele contra o presidente Donald Trump, o ex-presidente democrata disse que o republicano é "incapaz de levar o seu trabalho a sério" e provou ser incompetente para cuidar dos americanos na pandemia.

Obama disse que Trump contraiu covid-19 porque não conseguiu proteger nem a si mesmo. O ex-presidente falou nesta quarta-feira na Filadélfia, a maior cidade da Pensilvânia, sobre a importância de os eleitores comparecerem para votar. O estado é considerado fundamental pela campanha democrata para Joe Biden obter maioria no Colégio Eleitoral.

"Donald Trump não vai subitamente proteger a todos nós. Ele não conseguiu nem adotar os passos básicos para proteger a si mesmo. (...) Isto não é um reality show. Isto é a realidade. O resto de nós tem de conviver com as consequências de ele [Trump] ter provado ser incapaz de levar o seu trabalho a sério".

Foi o discurso mais incisivo feito por Obama contra Trump. O ex-presidente já havia criticado nesta campanha o atual ocupante da Casa Branca, mas pegou mais pesado nesta quarta-feira ao fazer o primeiro ato de rua para pedir voto no candidato do Partido Democrata, Joe Biden.

Obama lembrou que foi revelado recentemente pelo jornal "The New York Times" que Trump tem uma conta secreta na China. "Imaginem se eu tivesse uma conta secreta quando estava concorrendo à reeleição", ironizou o ex-presidente.

"Este presidente [Trump] quer todo o crédito por uma economia que ele herdou e zero culpa pela pandemia que ele ignorou. Mas vocês sabem. O trabalho [de presidente] não funciona desse jeito. Tuítar sobre a televisão não conserta as coisas. Inventar coisas não faz a vida das pessoas melhorar", declarou.

Na política americana, ex-presidentes procuram ter um papel discreto depois de deixar a função. Quase nunca fazem críticas à política externa. Tampouco buscam interferir em assuntos domésticos. Há uma tradição de não atacar quem está no poder. Mas Obama não normaliza Trump, um presidente que tem exercido o poder de forma imperial e ameaça a democracia americana. "Nossa democracia não vai funcionar se as pessoas que nos lideram mentem todos os dias."

Desde o início de sua Presidência, Trump elegeu Obama como o seu alvo preferido, mentindo a respeito de uma suposta conspiração do então presidente para bisbilhotar sua campanha em 2016. Trump também busca reivindicar crédito por bons números na economia que só foram possíveis devido às políticas da gestão Obama. O democrata evitou críticas durante os três primeiros anos do mandato de Trump, mas veio aumentando o tom ao longo de 2020 até chegar a um bombardeio impiedoso na Filadélfia.

Desesperado com as pesquisas que mostram que ele não deverá ser reeleito, Trump tem elevado o tom contra os democratas, chamando Biden e Hillary Clinton de corruptos. O republicano tem dito que os democratas vão, basicamente, destruir o sonho americano. Obama é o melhor orador da atual geração de políticos americanos. Deixa Biden no chinelo.

Com uma oratória que combina forma e conteúdo muito bem, ele entregou na Pensilvânia um discurso perfeito para desconstruir Trump na reta final da campanha. Se nas próximas duas semanas ele fizer mais dois atos como este da Filadélfia, vai ajudar os democratas a mobilizar a sua base para votar em número maior do que em eleições passadas.

O voto não é obrigatório nos EUA. Para vencer, é fundamental estimular os seus eleitores. Nos EUA, é possível votar via correio, antecipadamente em algumas seções eleitorais abertas em alguns estados e no dia do pleito, 3 de novembro. O voto antecipado tem sido recorde, o que é sinal positivo para Biden, pois mostra uma união dos democratas em 2020 bem diferente de 2016. Obama é excelente combustível para colocar fogo nesse eleitorado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.