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Kennedy Alencar

Nem Trump nega a vacina como Bolsonaro

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

21/10/2020 14h48

Nos Estados Unidos, também existe um debate sobre tomar ou não uma futura vacina contra a covid-19. Pesquisas mostram que aumentou a parcela da população que tem dúvida para se imunizar porque desconfia da pressa com que as autoridades tratam a busca pela cura contra o coronavírus.

O presidente Donald Trump já fez promessas irrealistas sobre o prazo para que haja uma vacina segura e eficiente contra a covid-19. A discussão aqui é se dá para confiar numa vacina bancada por Trump. No Brasil, a coisa é pior.

Além das dúvidas de parcela dos brasileiros serem parecidas com as dos americanos, porque é lógica que só vale a pena uma vacina segura, que não piore a saúde de quem a toma, e eficiente, que cure contra o coronavírus ou, pelo menos, alto percentual de sucesso na imunização.

Mas o presidente Jair Bolsonaro consegue superar o obscurantismo e a irresponsabilidade do colega americano. Nem Trump nega a vacina como Bolsonaro.

O Brasil tem uma legislação que permite tornar obrigatória a aplicação de uma vacina contra a covid-19. O que faria um presidente minimamente responsável? Ninguém está pedindo para Bolsonaro ser uma figura empática preocupada com a saúde dos brasileiros. Ele não liga. Mas o cálculo político mais egoísta levaria qualquer presidente brasileiro a bancar a obrigatoriedade da vacina, porque ela ajudaria a amenizar os efeitos de uma pandemia que mudou a vida no planeta.

Além da saúde pública, a covid-19 teve impactos profundos econômicos, sociais e culturais. As pessoas usam máscaras nas ruas, estão mais distantes socialmente, a desigualdade do acesso escolar se agravou, empregos desapareceram, crises de depressão são mais frequentes, casos de violência doméstica cresceram. A lista é longa.

Portanto, não se trata de uma imunização contra a gripe comum, muito menos letal do que a covid-19. Trata-se de uma doença ainda bastante desconhecida, cujas sequelas ainda estão sendo estudadas e entendidas.

Bolsonaro e o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, cometem crime de responsabilidade ao decidir que a futura vacina contra a covid-19 não será obrigatória, mas facultativa. Isso é negacionismo científico. É outro crime de responsabilidade desautorizar a compra da CoronaVac (vacina produzida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o Instituto Butantan).

A imprensa tem um papel a cumprir. Não deve aceitar que se reduza a vacinação obrigatória a um debate sobre liberdades individuais. Trata-se da saúde pública de um país inteiro. O jornalismo não deve fazer concessões ao negacionismo científico do governo Bolsonaro na mais grave crise sanitária do planeta em um século. Nesse debate, não cabe "doisladismo". Governadores como João Doria (PSDB-SP) e Flávio Dino (PC do B-MA) estão certos. Bolsonaro está errado.

Aplica-se a lei. A vacina contra a covid-19 deve ser obrigatória e ponto final.

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Piada pronta

O ministro da Saúde do Brasil contraiu a covid-19.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.