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Kennedy Alencar

EUA: Biden evita "já ganhou" para fazer eleitor votar e não repetir 2016

Obama entra em campo nesta quarta na campanha Biden - Getty Images
Obama entra em campo nesta quarta na campanha Biden Imagem: Getty Images
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

20/10/2020 12h49

O candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos (EUA), Joe Biden, tem evitado o clima de já ganhou para manter a sua base de eleitores mobilizada a votar, aumentando o comparecimento em relação a eleições passadas. Biden tem dito que a eleição não está garantida e que é preciso que seus apoiadores compareçam às urnas ou enviem as cédulas via correio.

Num país em que o voto não é obrigatório, essa mobilização é fundamental para vencer a eleição. A duas semanas das eleições de 3 de novembro, as pesquisas apontam favoritismo do democrata. Mas ele quer evitar uma vitória surpresa do presidente Donald Trump, como aconteceu há quatro anos.

Biden trava com Trump uma guerra decisiva nos chamados "swing states" (estados oscilantes ou pendulares, em inglês). A batalha da Pensilvânia é a mais importante (saiba mais sobre como funcionam as eleições do EUA).

A duas semanas das eleições de 3 novembro, essa liderança folgada, em tese, seria suficiente para garantir a vitória no Colégio Eleitoral, que tem 538 delegados. É necessário obter, no mínimo, maioria absoluta (270) para conquistar a Casa Branca.

Mas os democratas e Biden estão na situação do gato escaldado que tem medo de água fria. Hillary Clinton, que também liderava as pesquisas nacionais em 2016, acabou perdendo para Trump. A dianteira dela era menor do que a de Biden, quando Hillary tinha cerca de 4 pontos percentuais à frente na reta final.

Mesmo tendo mais votos no cômputo geral, Hillary perdeu para Trump por 306 a 232 votos no Colégio Eleitoral justamente porque Trump venceu em estados decisivos no meio-oeste americano, como a Pensilvânia, Michigan e Wisconsin.

Obama entra em campo na Pensilvânia

Mas é a Pensilvânia, onde Biden nasceu, quem tem sido considerada pela campanha democrata a principal batalha para vencer a guerra em 2020.

Vencer na Pensilvânia é o caminho mais fácil para Biden obter os 270 votos necessários para triunfar no Colégio Eleitoral. No estado, o democrata tem uma dianteira de cerca de 8 pontos percentuais sobre Trump na média das pesquisas, mas estrategistas de Biden temem que essa diferença caia na reta final e surpreenda como aconteceu em 2016.

Por isso, a campanha democrata concentra gastos em propaganda na TV na Pensilvânia e guardou uma arma poderosa para a reta final. O ex-presidente Barack Obama realizará nesta quarta-feira na Filadélfia, a maior cidade da Pensilvânia, o seu primeiro ato de campanha de rua nesta eleição.

Barack Obama, a ex-primeira-dama Michele Obama, o ator Samuel L. Jackson e o astro do basquete Lebron James têm feito campanha para estimular o eleitor democrata a votar. Michele fez um apelo aos eleitores para que votassem como se suas vidas dependessem disso.

Voto antecipado, voto pelo correio ou no dia da eleição

Nos EUA, há basicamente três formas de votar. Presencialmente no dia da eleição, como acontece no Brasil, é a forma clássica. Mas é possível comparecer presencialmente a algumas seções eleitorais já abertas em alguns estados. Até 3 de novembro, outros estados começarão a permitir o voto antecipado. Existe também o voto pelo correio, que também deve ser recorde e que tem sido combatido por Trump, que difunde a falsa teoria de que haverá fraude em massa.

Essa modalidade de voto tem se mostrado segura na história dos EUA. Até no meio da Guerra Civil, em 1864, os americanos puderam votar via correio para reeleger o republicano Abraham Lincoln contra o democrata George McCelellan.

Os pedidos para o voto antecipado surtiram efeito. Cerca de 30 milhões de americanos já fizeram as suas escolhas. Na Georgia e na Carolina do Norte, estados em que Trump deveria ter situação confortável, Biden é competitivo de acordo com as pesquisas. Eleitores enfrentam filas durante horas para votar. O mesmo acontece na Flórida, que começou a votação antecipada. Biden tem chance de ganhar no estado, que possui 29 votos no Colégio Eleitoral.

O alto comparecimento antecipado surpreende, porque o eleitor está saindo de casa apesar do crescimento da pandemia de covid-19 nos EUA. A alta tem sido quase generalizada nos 50 estados.

Democratas não querem "repeteco" de 2016

Nesse contexto, o atendimento dos eleitores democratas ao chamado de Biden para votar antecipadamente mostra como 2020 é diferente de 2016. Há quatro anos, a base democrata não foi em peso às urnas. A esquerda do partido ficou contrariada com a vitória de Hillary sobre Bernie Sanders na disputa interna. Uma outra parcela subestimou a força de Trump e não foi votar. Os democratas não querem ver esse filme novamente.

A estratégia de Trump de atirar no voto pelo correio, ameaçando entrar na Justiça para invalidar essas cédulas, foi um tiro pela culatra, porque mobilizou a base democrata a sair de casa. Mas o republicano também tem feito apelos a seus eleitores para que não deixem de votar. Pesquisas mostram que a maior parte dos democratas preferirá antecipar o voto enquanto a maioria dos eleitores republicanos tende a deixar a escolha para o dia 3 de novembro.

Trump sentiu o mau momento e tem feito comícios diariamente num clima de desespero, com mais ataques e mentiras do que de costume. Às vezes, faz dois ou três atos de campanha num mesmo dia para plateias sem distanciamento social e com poucas pessoas usando máscaras.

Nesse clima de disputa, Biden e os integrantes do partido democrata têm repetido um mantra: "Não dar nenhum voto como garantido".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.