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Kennedy Alencar

Vitória de Biden barra escalada autoritária nos EUA e terá impacto global

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

07/11/2020 13h49Atualizada em 13/11/2020 19h27

Com impactos políticos em todo o planeta, a vitória de Joe Biden interrompe uma escalada autoritária inédita na história dos Estados Unidos. O democrata será o 46º presidente da maior potência global. Com os 20 votos do estado da Pensilvânia no Colégio Eleitoral, Biden obteve 273 delegados na eleição direta no Colégio Eleitoral e conquistou Casa Branca, segundo projeção da rede de TV americana CNN na manhã de sábado.

O presidente Donald Trump exerceu o poder de uma forma imperial. Ultrapassou limites legais como um candidato a ditador e questionou a lisura da eleição com acusações falsas sobre fraudes na votação. Os EUA perderam influência no mundo com o afastamento de aliados tradicionais na Europa e uma estratégia de morde e assopra com a China que abriu uma avenida para a projeção geopolítica da potência asiática.

Barrar uma ameaça fascista, representada por Trump e sua tentativa de ganhar "tapetão" nestas eleições, não é pouca coisa. Fazer isso com repercussões políticas, econômicas e ambientais em todo o planeta, como fizeram Biden e os democratas, é uma façanha civilizatória que deve servir de lição a outros países em que houve ascensão do autoritarismo e populismo de direita e extrema direita nos últimos anos.

A mudança de direção dos EUA deverá diminuir a chance de populistas de direita e extrema direita chegarem ou se manterem no poder mundo afora.

Nos EUA, há um debate sério sobre até que ponto Trump enfraqueceu a democracia, ao dinamitar a crença no sistema eleitoral, disseminar teorias da conspiração de supremacistas brancos e não respeitar os freios e contrapesos a arroubos autoritários. Para alguns historiadores, uma vitória do republicano abriria caminho para o fascismo no país.

Mas, apesar de sua derrota, sequelas democráticas devem durar para além dos anos Trump após as eleições mais tensas em meio século. O Partido Republicano atravessa uma crise e luta para sustentar a maioria no Senado. Um legado do atual presidente é ter moldado uma cúpula do Judiciário mais conservadora, com maioria de 6 a 3 na Suprema Corte de ministros com cargos vitalícios.

China e Brasil

A vitória democrata terá impacto sobre a questão ambiental, com a volta dos EUA ao Acordo de Paris e a implementação de um programa de transição para uma economia menos dependente do petróleo. Na largada, o governo Bolsonaro sofrerá maior pressão internacional para o Brasil interromper a crescente destruição da Amazônia e de outros biomas, como o Pantanal.

Biden deverá ter outra estratégia em relação à China, com abordagem mais sofisticada para tentar envolver a potência asiática em negociações multilaterais e não apenas numa queda de braço bilateral entre Washington e Pequim. Um cenário internacional mais calmo, sobretudo no aspecto comercial, tende a beneficiar países da periferia, como o Brasil.

Bolsonaro, que apostou errado ao defender entusiasmadamente a reeleição de Trump, se isola ainda mais no mundo, e se candidata a saco de pancada ideal para o democrata mostrar serviço.

Frente ampla teve efeito na oposição a Trump

A derrota Trump se deve a diversos fatores que mostraram que 2020 é bem diferente de 2016. A pandemia se revelou imprescindível para virar o jogo nos EUA, transformando a disputa num referendo sobre a incompetente resposta do governo ao coronavírus e atraindo eleitores mais velhos que preferiram o republicano a Hillary quatro anos atrás.

O voto feminino, negro e jovem teve papel central na derrota de um presidente misógino e racista. Foi um acerto escolher a senadora Kamala Harris, afro-americana, como candidata a vice-presidente. Articulada e carismática, ela ajudou a mobilizar mulheres, negros e jovens a ir às urnas num país em que o voto é facultativo.

O perfil moderado e empático de Biden, com uma história de tragédias familiares, o transformou no candidato ideal para enfrentar um presidente agressivo e insensível, que faz bullying com os adversários nas redes sociais.

Por último, pesou bastante a união dos opositores a Trump, inclusive de setores republicanos que se juntaram a um Partido Democrata coeso como nunca. Isso serve de ensinamento à oposição brasileira e até a setores conservadores arrependidos do endosso a Jair Bolsonaro na disputa presidencial de 2018. Ao quebrar a "onda Trump", Biden e o Partido Democrata, em aliança com setores republicanos dissidentes, ensinam ser possível derrotar a mentira e o retrocesso com uma estratégia de frente ampla.

A ascensão de Biden na contagem de votos

Com uma virada em estados decisivos na apuração depois de passarem a ser contados os votos antecipados, sobretudo os enviados pelo correio, Biden, aos 77 anos, é a pessoa mais velha a conquistar a Casa Branca. Ele recriou a chamada "muralha azul" em três estados do meio-oeste (Michigan, Wisconsin e Pensilvânia) nos quais Trump derrotou surpreendentemente Hillary Clinton em 2016.

Na eleição indireta americana, é preciso alcançar maioria absoluta no Colégio Eleitoral, 270 dos 538 delegados.

Na madrugada de sexta nos EUA, por volta das 6h30 no horário de Brasília, o democrata ultrapassou Trump na Geórgia, um reduto republicano fazia décadas. O estado tem 16 delegados no Colégio Eleitoral.

Na manhã de sexta 06/11, pouco antes das 11h no horário de Brasília, foi a vez da virada na Pensilvânia. Biden tomou a dianteira (5.587 votos de vantagem). No sábado, quando Biden chegou aos 34.414 votos de vantagem sobre Trump, foi possível para a imprensa americana projetar a vitória do democrata. Só com os 20 delegados da Pensilvânia, Biden liquidou a parada, atingindo, pelo menos, 273 delegados no Colégio Eleitoral.

O democrata também ganharia em Nevada, levando os 6 delegados do estado e ampliando seu placar no Colégio Eleitoral para 279. Por volta das 23h30 de 12/11, veículos mais confiáveis da imprensa americana projetaram a vitória de Biden no Arizona, que tem 11 delegados no Colégio Eleitoral. Assim, o democrata chegou a 290 votos na eleição.

Na sexta 13/11, os veículos de comunicação projetaram a vitória de Biden na Geórgia, o que levou o democrata a 306 delegados no Colégio Eleitoral. Apesar da recontagem de votos no estado, a fatura é considerada liquidada.

Trump venceu no Alaska (3 delegados) e ganhou na Carolina do Norte (15). Obteve 232 votos no Colégio Eleitoral. Ironia da história: o placar de 306 a 232 é justamente o da vitória de Trump sobre Hillary Clinton quatro anos atrás. Em 2016, o atual presidente considerou esse resultado uma "lavada". Claro que esse placar não se trata de uma lavada, mas é uma vitória convincente.

As ondas vermelha e azul

Na noite de terça-feira (3), data da eleição, veio a onda vermelha, a cor do Partido Republicano. Na maioria dos estados, foram contados antes os votos dados no dia da eleição, criando a impressão de que Trump se reelegeria. No entanto, na quarta, quinta e sexta, com a apuração maior dos votos antecipados, sobretudo via correio, ocorreu a onda azul, a cor do Partido Democrata.

O resultado eleitoral não deixa dúvida sobre a mudança de rumo que os americanos decidiram dar ao país. Trump entra para a história como um raro presidente de um mandato só. O discurso golpista de mau perdedor na noite de quinta, no qual repetiu que a eleição estava sendo roubada e prometeu lutar na Justiça para anular votos legais, apenas adiciona tensão ao cenário político. Estimula eventuais protestos violentos de sua base e corrói mais as instituições democráticas.

Na prática, as ações judiciais deverão dar em nada por absoluta falta de provas.

Pandemia e união nacional

O democrata promete unir um país dividido por anos de polarização política, como revelam os números recordes dos votos nacionais nos dois candidatos. Nesse contexto de disputa acirrada, Biden afirmou diversas vezes que será o presidente de "todos os americanos" e não apenas dos seus eleitores. A América urbana e diversa preferiu Biden. A América rural e profunda, Trump.

Quando o ano de 2020 virar história, o papel da pandemia na derrota de Trump ficará ainda mais cristalino. O coronavírus foi fundamental para derrubar um presidente populista e despreparado, mas a alta votação que ele recebeu após minimizar a covid-19, agravando os efeitos da doença no país com o maior número absoluto de casos e mortes, prova como é difícil combater a mentira quando ela é usada com método como arma política.

Correção: o Alaska tem 3 e não 4 delegados no Colégio Eleitoral.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.