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Kennedy Alencar

Cidade com muro há 25 anos entre EUA e México espera América mais aberta

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

19/11/2020 04h04

Quando prometeu erguer uma muralha entre os Estados Unidos (EUA) e o México, na eleição de 2016, o republicano Donald Trump se inspirou numa barreira construída durante o governo do democrata Bill Clinton em Nogales, na fronteira entre os estados do Arizona (EUA) e Sonora (México). Em 1995, a cerca de arame farpado foi substituída por um muro de barras de aço com aproximadamente 6 metros de altura.

Há duas Nogales na fronteira, a americana e a mexicana. A cidade que fica no Arizona pertence ao condado de Santa Cruz, onde a chapa democrata Joe Biden-Kamala Harris recebeu 78,48% dos votos contra 18,46% da dupla republicana Donald Trump-Mike Pence.

José Angel Soto, 83 anos, votou em Biden: "Trump ofendeu muito os mexicanos. Não somos estupradores nem bandidos, mas trabalhadores. Biden não vai continuar a construção do muro, algo que é muito ruim e feio, como temos aqui em Nogales".

Fiscal aduaneiro aposentado e jogador amador de beisebol durante 30 anos, José nasceu na Nogales mexicana, tem dupla cidadania e tira a máscara e os óculos a fim de ficar "mais apresentável" ao posar para a foto. "Posso votar nos dois países", diz, com orgulho. No México, é eleitor de Andrés Manuel Lopez Obrador. "Esse muro aqui foi feito no governo Clinton, mas os democratas não são tão duros com os imigrantes como os republicanos. Nunca votei nos republicanos", afirma José.

Imigrantes esperam um governo mais compreensivo

Ana Sanchéz, 26 anos, mexicana, e Ashley Menendez, 21, americana, trabalham numa empacotadora de frutas e verduras no lado americano. As duas aguardavam juntas a chegada de um ônibus para levá-las ao trabalho.

Ana não pode votar nos EUA porque ainda não tem a cidadania, mas optaria por Biden, acreditando que ele será mais compreensivo com os imigrantes. "O número de deportados cresceu na nossa região. Ficou mais difícil vir para os EUA. Tenho amigos que sonham em atravessar a fronteira, mas não conseguem".

Para José Angel Soto, mesmo que Clinton tenha construído muro, foi Trump quem ofendeu os mexicanos - Kennedy Alencar/UOL - Kennedy Alencar/UOL
Para José Angel Soto, mesmo que Clinton tenha construído muro, foi Trump quem ofendeu os mexicanos
Imagem: Kennedy Alencar/UOL
"Trump é preconceituoso"

Ashley é eleitora de Biden. Ela também reclama da forma como Trump se refere aos mexicanos. "Trump é preconceituoso. Não gosto dele. Gosto do Biden porque ele escolheu uma filha de imigrantes (a senadora Kamala Harris) para ser vice dele. Tenho certeza de que será melhor do que Trump e vai parar de fazer o muro".

Os EUA e o México têm uma fronteira de 3.141 quilômetros. Há barreiras com cercas de arame ou muros em quase um terço dessa extensão. Mas Trump construiu pouco mais de 20 quilômetros em obstáculos novos, com cerca de 9 metros de altura. Em outros 400 quilômetros, o governo do republicano fez reformas em barreiras que já existiam. Trump não cumpriu nem cumprirá a promessa feita em 2016 de murar toda a fronteira sul dos Estados Unidos.

Biden prometeu na campanha interromper a construção de novas muralhas e reverter medidas da dura política migratória de Trump, como impedir a deportação de 600 mil imigrantes que chegaram aos Estados Unidos quando crianças e que estão sem documentos. Quase todos são adultos hoje que foram trazidos ilegalmente pelos pais.

Ashley Menendéz e Ana Sanchéz: uma vota, a outra não. Ambas apoiam eleição de Joe Biden - Kennedy Alencar/UOL - Kennedy Alencar/UOL
Ashley Menendéz e Ana Sanchéz: uma vota, a outra não. Ambas apoiam eleição de Joe Biden
Imagem: Kennedy Alencar/UOL
Diferença entre Arizona e Flórida

Com 11 delegados no Colégio Eleitoral, o Arizona foi um dos estados decisivos para a vitória de Biden. A última vez que um democrata havia ganho a eleição no estado foi em 1996, com a reeleição de Bill Clinton.

A comunidade latina no Arizona é diferente da que existe na Flórida, onde há um segmento forte com raízes em Cuba que não perdoa a política de aproximação e distensão que o governo Obama implementou em relação à ilha caribenha. Isso ajuda a explicar por que Trump ganhou na Flórida e perdeu no Arizona. A comunidade latina nos EUA não é monolítica.