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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro acerta ao questionar política de reajuste de combustíveis

Jair Bolsonaro participa de live - Reprodução/Facebook/Jair Messias Bolsonaro
Jair Bolsonaro participa de live Imagem: Reprodução/Facebook/Jair Messias Bolsonaro
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na “Folha de S.Paulo”, onde foi redator, repórter, editor da coluna “Painel” e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro “Kosovo, a Guerra dos Covardes” (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas “É Notícia” e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário “What Happened to Brazil”, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada “Brasil em Transe”, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

22/02/2021 11h59

O presidente Jair Bolsonaro acerta ao questionar a política da Petrobras para reajustar os preços dos combustíveis. A gasolina já subiu mais de 30% só neste ano. O diesel bateu quase nos 30% no mesmo período.

Em uma situação normal, o impacto de reajustes dessa magnitude provocaria danos na economia na real. Num ano de pandemia, agravam ainda mais os efeitos econômicos sobre os mais pobres.

Pessoas que se cotizam para viajar de carro do entorno de Brasília a fim de vir trabalhar no Plano Piloto se dizem preocupadas. É gente que gastaria duas horas num ônibus para ir e mais duas horas para voltar que deu um jeito de fazer esse trajeto em uma hora, uma hora e meia. Esse pessoal pagaria R$ 15,00 para ficar de pé num ônibus durante umas quatro horas. Mas essas pessoas preferem o "luxo" de viajar sentadas num carro a R$ 16,00 (ida e volta). Isso é a vida real de muitos brasileiros que não trabalham na Faria Lima.

Nem é preciso comentar o efeito no trabalho de caminhoneiros, motoristas de aplicativos e taxistas.

O impacto negativo no mercado financeiro também afeta a economia. Isso não pode ser negado nem desprezado. Como sempre, Bolsonaro errou na forma. Quer instalar mais um general na cúpula do governo com a indicação de Joaquim Silva e Luna para presidir a Petrobras. É um retrato da venezuelização que Bolsonaro implementa sem constrangimento. Vai dar trabalho tirar esses militares das estruturas civis.

Mas voltemos à Petrobras.

Quem compra uma ação da empresa sabe que o acionista majoritário é o estado brasileiro. A Petrobras é um dos alicerces da cambaleante economia brasileira. Tem impacto em diversas cadeias produtivas.

Com aval de uma imprensa que só defende o lado do "mercado", é fácil ter ações de uma empresa estatal querendo que ela se comporte como se privada fosse. Se der prejuízo, o Tesouro cobre. Se der lucro, maior distribuição de dividendos e realização de lucros ao vender ações.

É óbvio que os direitos dos acionistas minoritários devem ser respeitados. Mas, se o investidor não quer correr o risco de uma intervenção governamental na empresa, pode comprar ações de companhias privadas.

Uma política de reajuste completamente atrelada ao dólar, com aumentos em períodos tão curtos, causa distorções na economia. Não deveria ser pecado debater isso.

Encontrar uma fórmula que amenize choques de preço é algo bem capitalista. O "deus mercado" sabe disso, mas também sabe que o Brasil tem uma elite predatória e egoísta que se lixa para os mais pobres e as suas vidas reais.

Detalhe: os motoristas que fazem o transporte de passageiros do entorno de Brasília ao Plano Piloto evitaram repassar automaticamente a subida da gasolina e absorveram, por enquanto, a elevação. Mas parece heresia pedir à Petrobras maior previsibilidade para os preços cobrados dos consumidores.

O hipócrita

Os democratas de pandemia que agora atacam Bolsonaro sabiam que comprovam gato por lebre. O "moderadinho do Brasil", Luciano Huck, passou a tuitar sobre negacionismo e confiança. Ele se posiciona como alternativa "aos extremos".

Ora, extremismo é votar em Bolsonaro achando que ele teria chance de ouro de ressignificar a política no Brasil. É uma figura com essa capacidade de discernimento que se apresenta como alternativa presidencial, com a torcida de muitos jornalistas.

Sério? Não tem Armínio Fraga que dê jeito.

O que aconteceu com Paulo Guedes, o selo de garantia para controlar Bolsonaro? Quando uma pessoa se senta na cadeira de presidente, ela faz o que lhe dá na telha. O preparo para o posto conta muito. Viajar de jatinho para fazer caridade televisiva não é conhecer os rincões do Brasil.

Huck é um hipócrita e despreparado. Não dá para deixar passar batido. Como diz a máxima, as consequências vêm depois.

O autoritário

Agora a gente sabe qual era o plano do procurador Deltan Dallagnol para indicar ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). Estabelecer uma lista tríplice escolhida pela fina flor do corporativismo de um Judiciário cheio de privilégios. Tratava-se um projeto de ditadura da toga.

É justo registrar outros dois acertos de Bolsonaro. Tirou Sergio Moro da 13ª Vara Federal de Curitiba e não aceitou sugestão de seu então ministro da Justiça para indicar Deltan Dallagnol para a Procuradoria Geral da República.

Essa gente é perigosa. Mudou a história do país para ajudar Bolsonaro a se eleger. No caminho, destruiu setores da economia brasileira e corrompeu a lei processual penal . Esses moralistas sem moral são responsáveis pelo agravamento da tragédia brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL