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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Abusos da Lava Jato e corporativismo desmoralizaram lista tríplice para PGR

Augusto Aras abraça Jair Bolsonaro - Jorge William / Agência O Globo
Augusto Aras abraça Jair Bolsonaro Imagem: Jorge William / Agência O Globo
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Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

22/06/2021 09h28

Os abusos impunes da Lava Jato e o corporativismo exagerado do próprio Ministério Público Federal desmoralizaram a lista tríplice da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). Essa lista é enviada ao presidente da República para que ele escolha o PGR (procurador-geral da República).

A lista da ANPR foi seguida nos governos Lula, Dilma e Temer como o principal critério para indicar o procurador-geral da República. Lula e Dilma sempre apontaram o mais votado da lista. Temer optou pela segunda colocada, Raquel Dodge. Bolsonaro simplesmente ignorou a eleição interna da ANPR e indicou Augusto Aras para o comando do Ministério Público Federal. Aras protege Bolsonaro e deverá ser reconduzido.

A lista tríplice foi criada no início do ano 2000 para fortalecer a autonomia do Ministério Público Federal, mas não precisa ser seguida pelo presidente da República. A Constituição diz que cabe ao presidente indicar o procurador-geral, que precisa ser aprovado pelo Senado, mesmo procedimento dos apontamentos para ministros do Supremo Tribunal Federal.

Na Lava Jato, o Ministério Público Federal atuou como poder paralelo aos demais. Figuras como Deltan Dallagnol corromperam a lei processual penal e continuam no serviço público. O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) deu uma de engavetador-geral em relação aos desmandos da categoria em conluio com Sergio Moro.

Bolsonaro é um misógino cretino de plantão na Presidência. É uma pena que tenha o poder de indicar alguém como Aras. Mas é melhor que a escolha seja do presidente do que de uma categoria que se encastelou nos seus privilégios e arrogância nos últimos anos.

Um presidente da República tem o filtro dos votos dos eleitores. Essa lista da ANPR serve ao propósito de reforçar um corporativismo que se revelou danoso ao país.

O presidente da ANPR, Ubiratan Cazetta, tem falado na importância de freios e contrapesos e de autocontenção, numa alusão ao papel do Senado para referendar ou recusar uma escolha do presidente. Bolsonaro deverá apontar Aras para recondução no fim de setembro.

Ora, a Lava Jato, a ANPR e o Ministério Público Federal dinamitaram qualquer tipo de autocontenção e de freios e contrapesos com o que fizeram nos verões passados. São corresponsáveis pela eleição de Bolsonaro e pela destruição institucional do país.

Três subprocuradores-gerais são candidatos na eleição de hoje da ANPR: Luiza Frischeisen, Mario Bonsaglia e Nicolao Dino. Apesar das qualidades pessoais dos postulantes, a ANPR fará hoje um mero teatro. Talvez devesse gastar o dia com um pouco de autocrítica.