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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pacheco transmite fraqueza; Barroso reage no tom certo contra golpismo

Rodrigo Pacheco - Reprodução de vídeo
Rodrigo Pacheco Imagem: Reprodução de vídeo
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

09/07/2021 19h03Atualizada em 09/07/2021 21h01

"Canalha! Canalha!", gritou Tancredo Neves para o então presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, na madrugada de 2 de abril de 1964. Moura Andrade anunciara que João Goulart, que sofrera um golpe de Estado na véspera, havia abandonado o governo e a Presidência estava vaga. Tancredo, então líder de Jango, deixou de lado sua moderação característica e descreveu Auro de Moura Andrade naquela noite exatamente como ele iria parar na lata de lixo da História.

Hoje, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), fez um pronunciamento no fim da tarde para reagir ao golpismo do presidente Jair Bolsonaro, do ministro da Defesa, Braga Netto, e dos comandantes das Forças Armadas. A montanha pariu um rato.

"Todo aquele que pretender algum retrocesso ao estado democrático de direito esteja certo que será apontado pelo povo brasileiro e pela história como inimigo da nação e como alguém privado de algo muito importante para os brasileiros e para o Brasil, que é o patriotismo, neste momento que nós precisamos de união, de pacificação, de busca de consenso", disse Pacheco.

Indagado por uma repórter se aquelas palavras se aplicavam a Bolsonaro, que voltara hoje a repetir a ameaça de impedir a realização de eleições no ano que vem, Pacheco disse respeitar as declarações do presidente da República e saiu pela tangente. Não condenou claramente as palavras de Bolsonaro.

Mas a coisa ainda iria piorar. Pacheco repetiria a ladainha acovardada de que atuou para pacificar a relação do Senado com as Forças Armadas ao comentar a nota golpista divulgada anteontem por Braga Netto e comandantes militares. A nota foi um ataque ao senador Omar Aziz, presidente da CPI da Pandemia. Também foi tentativa de intimidar a CPI e o Senado.

Pacheco chegou ao absurdo de afirmar que iria entrar em contato com o comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, para ouvir o sentimento dele. Bolsonarista de carteirinha, o comandante da Aeronáutica deu uma entrevista ao jornal "O Globo" fazendo ameaça explícita a Omar Aziz, presidente da CPI da Pandemia, e ao país. A CPI está investigando militares suspeitos de corrupção.

"É um alerta. Exatamente o que está escrito na nota. Nós não enviaremos 50 notas para ele (Omar Aziz). É apenas essa", afirmou o comandante golpista da Aeronáutica.

A fala de Pacheco foi um fiasco, porque ela transmitiu fraqueza. Mesmo que Omar Aziz tivesse agredido as Forças Armadas, o que não aconteceu, Pacheco deveria ter ficado ao lado do presidente da CPI e do Senado. A conversa de "pacificação" mostrou submissão do Congresso aos militares.

Se o presidente do Senado está mais para Auro de Moura Andrade do que para Tancredo Neves, o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Roberto Barroso, agiu corretamente ao subir o tom contra novos ataques de Bolsonaro.

Também ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Barroso divulgou nota dura, dizendo que Bolsonaro mente ao falar em fraude nas urnas eletrônicas e que o presidente cometera "crime de responsabilidade" ao mentir, ameaçar e chantagear o país.

A reação de Barroso é um exemplo do que Pacheco deveria ter feito. O cavalo passou selado na porta do senador mineiro. Como ensinou Guimarães Rosa, o que a vida quer da gente é coragem. No entanto, Pacheco é uma figura muito aquém do que o Senado e o Brasil precisam neste momento.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado em versão anterior deste texto, o senador Rodrigo Pacheco é filiado ao DEM de Minas Gerais, não do Rio de Janeiro. O texto já foi corrigido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL