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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atos do MBL provaram que só falta uma coisa para viabilizar 3ª via: voto

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

13/09/2021 12h18

Os atos de 12 de setembro provaram que só falta uma coisa a fim de viabilizar a terceira via para as eleições presidenciais do ano que vem: voto.

Fracassaram as manifestações convocadas pelo MBL (Movimento Brasil Livre), Vem Pra Rua e Partido Novo. Motivo: a base social que vitaminava tais movimentos é a mesma do bolsonarismo. Mas essa turma não foi à avenida Paulista nem à Esplanada dos Ministérios.

No passado, as fatias do eleitorado de extrema-direita e direita se abrigavam no PSDB. Com a demonização da política pela Lava Jato e a ascensão do autoritarismo ao poder, esse segmento prefere o original aos genéricos e continua fiel ao presidente Jair Bolsonaro.

Esses eleitores veem o MBL e seus parceiros como traidores da causa regressiva que tentam implementar no Brasil. O público do Movimento Brasil Livre é exatamente aquele que foi às ruas em 7 de Setembro pedir a morte da democracia e o fechamento do Supremo Tribunal Federal.

A maior parte dos eleitores de esquerda não caiu no conto do vigário do MBL, movimento que nunca fez parte da direita democrática. Pelo contrário, invadiu museu, escola e hospital. Divulgou fake news contra Marielle Franco e o padre Júlio Lancellotti. Atacou com métodos baixos e autoritários seus críticos e adversários.

Descartados por Bolsonaro, os jovens do MBL tentaram se reinventar como fascistas convertidos em democratas e colheram nas ruas o tamanho que têm hoje. A coisa toda flopou.

Os atos de 12 de setembro contaram com a presença de democratas como Ciro Gomes (PDT), Alessandro Molon (PSB), Orlando Silva (PC do B) e João Doria (PSDB), entre outros. Faz sentido reunir esses políticos numa grande frente ampla em defesa da democracia, separando tática eleitoral de tática política.

Mas as manifestações de 12 de Setembro foram convocadas por movimentos sem credenciais democráticas para liderar essa frente. Parece difícil para certos setores da política e do jornalismo entender que frente contra o fascismo não inclui fascistas.

"A esquerda fez atos com radicais do PCO", dizem alguns. Ora, os militantes do PCO, que cabem num ônibus, aderiram a atos de esquerda, que sempre pediram o impeachment do genocida. O PCO não liderou essas manifestações como o MBL conduziu as de 12 de Setembro.

Logo, não houve sectarismo nem revanchismo da esquerda, mas memória e aprendizado com a História recente. Com razão, o grosso do eleitorado de esquerda pulou fora e deixou democratas respeitáveis subirem no palco vazio do MBL. Esses políticos fizeram uma aposta, o que é legítimo no jogo democrático. Se os protestos deste domingo tivessem bombado, certamente haveria dividendos eleitorais para Ciro e Doria, por exemplo.

Mas a mobilização do MBL deu errado porque o grosso do eleitorado está dividido entre Bolsonaro e a candidatura do ex-presidente Lula (PT). Como atestam as pesquisas, Bolsonaro e Lula têm os votos que faltam à terceira via. A pouco mais de um ano das eleições, ainda há tempo para uma virada de cenário, mas não parece provável.

O sonho de tirar Bolsonaro da corrida eleitoral alimenta fantasias de quem deseja capturar a maior parte do seu eleitorado a fim de enfrentar Lula. Entretanto, corre em Brasília o rumor de que Jair poderia lançar à Presidência o filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), se sofrer impeachment ou se for afastado da corrida presidencial pelo Tribunal Superior Eleitoral, hipóteses para lá de improváveis.

Bolsonaro disse a deputados federais que, se ele não concorrer à reeleição, pensa em apontar o filho como herdeiro político. Essa seria uma das razões para querer se filiar a um partido que possa chamar de seu. O presidente avalia que teria capacidade de transferência de votos para colocar um nome do bolso de colete no segundo turno, apesar de o cenário mais provável ser mesmo a candidatura do genocida à reeleição.

Logo, viabilizar uma terceira via à direita não parece tarefa simples, apesar do isolamento político crescente de Bolsonaro e do derretimento do governo. Tampouco parece fácil à esquerda. Seria preciso tirar Lula novamente do jogo. É quase impossível que aconteça.

No entanto, digamos que, por alguma razão, o ex-presidente deixe de disputar o Palácio do Planalto no ano que vem. Há dúvida de que Lula transferiria votos para levar um candidato do PT ao segundo turno e eventualmente à vitória?

Em 2018, Lula colocou Haddad na segunda fase no auge da Lava Jato e de dentro de uma cela da Polícia Federal de Curitiba. Em 2022, o antipetismo terá menos peso do que há quatro anos.

A terceira via precisa conquistar votos. Para tanto, necessita oferecer um programa de governo capaz de arregimentar eleitores que hoje preferem Bolsonaro ou Lula.

Dos postulantes da terceira via, Ciro Gomes é quem tem apresentado um programa de governo mais pronto e acabado. Tem feito isso em entrevistas, lives e peças bem elaboradas nas redes sociais. Mas a maior parte do eleitorado de esquerda discorda dos ataques dele a Lula e vê semelhanças programáticas nas propostas ciristas e petistas.

O governador de São Paulo, João Doria, é o favorito para vencer as prévias do PSDB. Tem uma bandeira forte e verdadeira: trouxe a CoronaVac e obrigou Bolsonaro a sair do negacionismo em relação às vacinas. Mas sofreu desgaste em São Paulo ao adotar medidas sanitárias restritivas e não é uma figura de peso nacional.

Concorrente de Doria no PSDB, o governador Eduardo Leite (RS) repete bordões vazios que agradam a Faria Lima. Soa como um Paulo Guedes menos arrogante. Leite dificilmente conseguirá a candidatura tucana e empolgar alguém para além do Jardim Botânico.

Os senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS) estiveram na avenida Paulista. Os dois entraram nas ondas de especulações sobre nomes da terceira via. Ambos têm tido destacado desempenho na CPI da Pandemia, mas pouco se sabe do que pregam para o país fora dos discursos lavajatistas contra a corrupção.

Em resumo, a polarização entre Bolsonaro e Lula se mantém porque os dois políticos têm voto. Autoritária, a proposta bolsonarista é a barbárie. O programa de Lula está no campo da civilização e da democracia.

Os candidatos da terceira via precisam encontrar voto a fim de sonhar com um bilhete para chegar ao segundo turno em 2022 e, eventualmente, conquistar o poder. Do que está posto na mesa até agora, não há escolha difícil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL