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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Depoimentos comoventes podem apagar fogueira das vaidades na CPI

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

18/10/2021 15h28

No Congresso, são naturais as divergências políticas. Em todas as CPIs, houve debate sobre o que constaria no relatório final. Portanto, não é novidade a divisão no G7, o grupo de sete senadores que tem maioria na comissão e costuma jogar junto contra os senadores negacionistas. Há debate sobre quem deve ser indiciado e por quais crimes.

Os fortes depoimentos desta segunda-feira (18) parecem ter trazido boa dose de calmante contra ânimos que ficaram acirrados com o vazamento da última versão do relatório de Renan Calheiros (MDB-AL). Falaram diversas vítimas da covid-19, traduzindo discussões abstratas em dores concretas de carne e osso.

Foram ouvidas pessoas que perderam seus entes queridos porque o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o seu governo deram a pior resposta possível à pandemia de coronavírus. As caras e as dores reais foram o tema desta segunda. Quem viu ou ouviu os relatos se emocionou a ponto de chorar.

"Hoje foi o dia mais importante desta CPI", disse o senador Humberto Costa (PT-PE). Ele tem razão. Os números tiveram "face, rosto, história", completou o senador. "Não podemos nos transformar numa fogueira das vaidades", afirmou, fazendo um alerta sobre os riscos das divergências que dividem o G7.

Um dos depoimentos mais emocionantes foi o da jovem Giovanna Gomes Mendes da Silva, 19, que perdeu os pais para a covid-19 e pediu a guarda da irmã de 10 anos.

"Assim que tudo aconteceu, eu senti dois impactos. Eu e minha irmã, a gente teve um impacto emocional a princípio e, depois, impacto financeiro. Impacto emocional porque, diante do contexto, diante do que aconteceu, a gente não estava bem psicologicamente, assim como a gente não está até hoje", disse a estudante, natural de São Luís (MA), que foi obrigada a assumir os cuidados com a irmã, hoje com 11 anos.

Ao falar da perda dos pais num período de duas semanas, ela contou à CPI que agora ela e a irmã se apoiavam uma na outra e recebiam ajuda de familiares.

"A gente não teve nem tempo de sofrer pela minha mãe. Minha mãe tinha falecido há dois dias e eu já tive que estar com o meu pai no hospital. Não podia ficar chorando no hospital na frente do meu pai, tinha que mostrar força", disse Giovanna.

O último a depor foi Márcio Antonio do Nascimento Silva, cujo filho Hugo morreu de covid logo no começo da pandemia. Márcio virou notícia ao recolocar na areia da praia de Copacabana cruzes que estavam sendo derrubadas por apoiadores de Bolsonaro.

Márcio e outros disseram que a CPI criou um espaço para informar a população. "Até hoje não recebi do Ministério da Saúde uma informação correta", ele falou. Sobre a CPI, afirmou: "[Vimos que] tinha instituições fazendo alguma coisa pela gente".

O depoimento de Márcio foi um dos mais comoventes. Com voz embargada e um choro contido, ele disse que "não é normal" o que aconteceu no país sob a liderança de Bolsonaro, que deu seguidas provas de falta de empatia com as mortes ao longo da pandemia. Afirmou também que aguardava um "pedido de desculpas da maior autoridade do país".

Fez uma pergunta que já veio com a resposta, quando falou da cena em que recolocava na areia cruzes derrubadas por negacionistas: "Eu quero saber o que se passa na cabeça desses seres humanos irracionais?".

Bolsonaro foi muito cobrado nos depoimentos. "A nossa dor não é mimimi", disse Márcio, numa menção à falta de empatia do presidente. "A gente combate o ódio com amor. Não quero um país que dê armas para os meus netos."

Que as falas de quem sofreu na pele o dolo assassino do genocida ajudem os senadores do G7 a achar uma solução que supere a guerra de egos.

"Eu sou um labirinto em busca de uma saída", disse Vinicius de Moraes numa entrevista para Otto Lara Resende. A CPI da Covid, que encontrou a saída do labirinto em que o genocida jogou o Brasil, precisa ter a coragem de não se perder na votação do relatório final.

Deve ter a coragem de responsabilizar todos os assassinos dessa organização criminosa que é o governo Bolsonaro, uma administração que fez da contaminação em massa e da mentira da cloroquina uma política pública. Bolsonaro e seus auxiliares agiram com dolo e merecem da CPI uma resposta à altura dos depoimentos comoventes de pessoas que perderam seus entes queridos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL