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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Moro se lança à Presidência fingindo não ter nada a ver com Bolsonaro

Sergio Moro discursa ao oficializar sua filiação ao Podemos em cerimônia em Brasília - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Sergio Moro discursa ao oficializar sua filiação ao Podemos em cerimônia em Brasília Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

10/11/2021 13h15

O ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro se lançou hoje candidato à Presidência com um discurso de falsa moderação contra "os extremos" e como se não tivesse nenhuma responsabilidade pela chegada de Jair Bolsonaro (sem partido) ao poder e a crise que isso desencadeou no país.

Apesar de ter apresentado "apenas ideias de um projeto maior", falando de economia e desigualdade social, a corrupção continua a ser o seu principal mote de campanha. Moro se filiou hoje ao Podemos, em Brasília.

Ele fez um discurso de 50 minutos empostando a voz em tom mais grave, diferente da marcante característica aguda e algo estridente. "Alguns até dizem que não sou eloquente e muita gente critica a minha voz. (...) O Brasil não precisa de líderes que tenham voz bonita, o Brasil precisa de líderes que ouçam a voz do povo brasileiro", disse.

Moro afirmou que seria candidato para liderar um projeto coletivo e não pessoal. "Nunca tive essa ambição [de ser candidato a presidente], mas, se for preciso o meu nome para essa liderança, ele estará sempre à disposição do Brasil."

Segundo Moro, sua postulação seria "para que o país possa escapar dos extremos da mentira, da corrupção e do retrocesso". Ele bateu em Bolsonaro e, indiretamente, no ex-presidente Lula (PT), fazendo falsa equivalência entre petismo e bolsonarismo.

Moro, que é um representante do bolsonarismo sem Bolsonaro, tentou se afastar do presidente. Fingiu que não tem nada a ver com o que ele e a Lava Jato ajudaram a criar, pavimentando o caminho para a chegada ao poder do pior presidente da nossa história. Uma decisão de primeira instância de Moro acabaria sendo confirmada em segunda instância, o que tirou Lula, então líder nas pesquisas, da corrida presidencial de 2018. Logo depois, ele foi trabalhar com o Bolsonaro, o vencedor.

Justificou ter aceitado o convite para ser ministro da Justiça porque "tinha esperança por dias melhores, (...) havia pelo menos uma chance de dar certo e eu não poderia me omitir." Alegou que deixou o governo porque o apoio ao combate à corrupção "foi negado".

Apesar de ter corrompido a lei processual e de ter destruído setores da economia, disse, citando o trabalho dele e da Lava Jato, "quebramos a impunidade da grande corrupção, de uma forma e com números sem precedentes". Afirmou que mais de R$ 4 bilhões foram recuperados e que há "mais R$ 10 bilhões para serem devolvidos".

Disse que ingressou numa consultoria americana que tem como clientes empresas brasileiras que foram afetadas pelas decisões judiciais dele porque "precisava trabalhar" e nunca enriquecera "como juiz ou ministro". Estava "cuidando da vida privada", ressaltou.

Em resposta à crítica de que serviu aos interesses geopolíticos dos EUA, afirmou que resolveu entrar para a política quando um jovem lhe perguntou em Washington se ele havia abandonado o Brasil. "Eu não poderia e nunca vou abandonar o Brasil."

Numa resposta indireta por ter sido julgado suspeito nos processos do ex-presidente Lula, afirmou que poderosos estavam se livrando da cadeia devido a "formalismos e argumentos" que não conseguia entender. "É mentira dizer que acabou a corrupção. Quando, na verdade, enfraqueceram as ferramentas para combatê-la."

Voltando a vestir o figurino de paladino, afirmou: "Eu sonhava que o sistema político iria se corrigir após a Lava Jato. Embora tenha muita gente boa na política, a gente não vê grandes avanços. Resolvi fazer do jeito que me restava, entrando para a política".

Moro repetiu que era alguém que sempre fez a coisa certa e uma pessoa "em que vocês podem confiar". "O Brasil poderá confiar que este filho teu não fugirá à luta."

Para se vender como alguém que teria ideias, ele citou chavões sobre desigualdade social, erradicação da miséria, responsabilidade fiscal e combate ao crime organizado. "São apenas ideias de um projeto maior. (...) Tenho ouvido especialistas."

"Chega de ofender ou intimidar jornalistas", disse. Ressaltou ser preciso "proteger a família contra as drogas e a violência". "Defendemos o livre mercado, a livre empresa e a livre iniciativa. Precisamos reformar nosso sistema confuso de impostos. Privatizar estatais ineficientes, abrir e modernizar nossa economia."

A frase de maior efeito veio quase no fim: "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de Petrolão, chega de rachadinha... chega de orçamento secreto".

Agora político assumido, Moro tem ideias de extrema-direita semelhantes às de Bolsonaro. Comporta-se com hipocrisia. Cometeu crimes para combater o crime. Não deu uma palavra que pudesse ser entendida como autocrítica. A imprensa ganhou hoje candidato à Presidência que deverá ser o queridinho dos democratas de pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL