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Ao chamar tortura de "cascata", Bolsonaro endossa quem chama facada de fake

Presidente Jair Bolsonaro em Brasília -
Presidente Jair Bolsonaro em Brasília
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/03/2020 19h37

"A maioria é tudo cascata para ganhar indenização." Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro chamou as denúncias de tortura ocorridas durante a ditadura militar, em conversa com seus fãs, na porta do Palácio do Alvorada, neste sábado (29).

Negar que houve tortura na ditadura, apesar de torturadores atestarem o que fizeram (alguns com orgulho), de sobreviventes revelarem as marcas em seus corpos e as sequelas em suas mentes, das fotos, dos registros, dos cadáveres, é um absurdo.

O presidente reclama dos que afirmam que aquela abominável facada, de setembro de 2018, é uma cascata para ganhar a eleição. Mas não se importa em dizer que denúncias de tortura são cascatas de quem quer receber compensações. Há evidência em ambos os casos, mas ele escolhe os fatos que lhe convém para endossar.

É claro que Bolsonaro não apenas sabe que houve (e muita) tortura contra dissidentes políticos, indígenas e trabalhadores rurais naquele período, como apoiou seus executores. Tanto que, sempre que pode, presta homenagens a um dos maiores carniceiros do período, o infame coronel Brilhante Ustra.

E já insinuou a prática para ameaçar. Ao afirmar, em uma live, no dias 31 de outubro, que "quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia", ele se referia a servidores públicos que estariam demorando para conceder licenças para um empreendimento. "Ponta da Praia" é a base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, que foi usada como centro de tortura e execução durante a ditadura.

A questão, contudo, não é a falta de entendimento de nosso presidente sobre democracia. Até porque, como disse o filósofo Paulo Arantes, ele não conhece a natureza intrínseca da democracia, então nem a entende. Mas Bolsonaro tem colocado cada vez mais convicções acima de fatos, já não se importando se a mentira contada é tosca ou tem um mínimo de verniz engana-trouxa.

Por exemplo, em sua última live, disse que o vídeo que mandou, via WhatsApp, para seus amigos convocando para os protestos contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, era de 2015. Mas o vídeo mostrava ele sendo esfaqueado, o que ocorreu três anos e meio depois. Com base nessa mentira, a jornalista Vera Magalhães sofreu um linchamento virtual de bolsonaristas e suas milícias digitais.

Ao longo de 2018, afirmei neste espaço que, com o governo Bolsonaro, chegaria o momento em que fatos não farão mais diferença.

Infocalipse

Sim, um dos piores legados da última eleição foi o aumento da parcela da população (da extrema direita à extrema esquerda) que não faz questão de separar fatos de invenções - seja por que considera isso irrelevante, seja por que desistiu de tentar entender o que é real e o que não é devido ao caos, seja por que se beneficia com isso.

Estamos em rápida construção do cenário que Aviv Ovadya, chefe de tecnologia do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do conceituado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), chamou de "Infocalipse". Isso pode ameaçar ainda mais a democracia por aqui, da mesma forma como está fazendo em outras partes do mundo. Se você não acredita em fatos e na razão e se guia apenas por falsidades e emoções, principalmente as transmitidas por influenciadores digitais, como vai tomar decisões racionais envolvendo sua vida e a da sua comunidade?

A falta de educação formal, que dificulta a leitura e a interpretação de textos; a falta de capacitação para a mídia, o que impede a análise de discursos e a uma reflexão sobre o ato de compartilhar informação não checada; a ultrapolarização, que faz com que seres humanos normais se vejam em uma guerra política, encarando toda informação contra o "inimigo" como verdadeira; e a perda de relevância de instituições, que faz com que as pessoas desconfiem das informações que vêm do Estado e da imprensa ajudam nesse caos.

Mas parte da população sabe exatamente que está recebendo um boato ou uma mentira e, conscientemente, passa adiante. Não para fortalecer sua identidade dentro do grupo ou ganhar likes e, portanto, respeito, mas para, de forma clara, atacar o "inimigo" - personificado na figura de um adversário político e seu campo ideológico.

O ambiente tóxico para o debate digital que foi criado, paulatinamente, desde as eleições de 2014, passando pelo processo de impeachment até atingir as eleições de 2018, deixou marcas que dificilmente serão removidas.

E não por conta de ressentimentos e da ultrapolarização, que explode pontes e impede que ouçamos aqueles com os quais não concordamos. Mas por simplesmente haver um naco da população para o qual as consequências éticas de não separar fato e boato deixou de existir. Acreditam na lei do mais forte - o que significa, nessa era digital, que aquele que conseguir impor sua vontade, usando qualquer método, vence.

A partir do momento em que o processo de repassar, conscientemente, mentiras é feito de forma massiva, com a aceitação coletiva dessa difusão em nome de um objetivo político, nada impede que tal comportamento estenda-se ao restante das dimensões das relações sociais. A difusão de fatos falsos passa a ser encarado como o novo normal, preenchendo de lama a esfera pública.

Isso aconteceu com mentiras sobre vacinas e está ocorrendo, agora, com o coronavírus. Lembrando que o caos pode ser lucrativo para muita gente.

Como já disse aqui, as Convenções de Genebra são tratados firmados para definir direitos e deveres de combatentes em tempos de guerra, o que guiou o desenvolvimento do direito humanitário. Esse tipo de acordo costuma ser firmado após longos períodos de atrocidades e horrores serem presenciados, como forma de evitar que não se repitam.

Com a corrosão de elementos que nos mantém unidos e o fim da agenda pública comum, com a dificuldade de reconhecer no outro o direito à dignidade, pergunto-me se teremos que nos reunir para construir documentos semelhantes para batalhas digitais em um mundo pós-Infocalipse. Se houver mundo, claro.

Leonardo Sakamoto