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Leonardo Sakamoto


Pastor abre templo a doentes por coronavírus e critica quem mantém cultos

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o pastor Silas Malafaia promoveu um culto para cerca de 350 fieis em igreja evangélica em Campo Grande, na zona oeste do Rio - Herculano Barreto Filho/UOL
Em meio à pandemia do novo coronavírus, o pastor Silas Malafaia promoveu um culto para cerca de 350 fieis em igreja evangélica em Campo Grande, na zona oeste do Rio Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

20/03/2020 16h26

Um templo com capacidade de 2300 pessoas, na Zona Sul de São Paulo, fechou as portas para cultos e ofereceu suas instalações para o governo atender pacientes infectados pelo coronavírus. Ricardo Gondim, pastor, teólogo e presidente da Igreja Betesda, em conversa com a coluna, falou sobre essa decisão e criticou líderes religiosos que promovem aglomerações neste momento. "Não estamos dispostos a sacrificar os ensinamentos de Deus e a saúde dos próprios fiéis em nome de preservar a igreja da insolvência financeira."

"Cancelamos os cultos presenciais desde o início da semana passada, tudo o que estamos fazendo é on-line. A igreja estava vazia e ociosa e o espaço é grande. Ela perdeu o sentido litúrgico temporariamente, mas não o sentido social", afirma.

Betesda disponibilizou sua sede para o poder público usá-lo como enfermaria, posto avançado de saúde, centro de distribuição de alimentos ou atendimento a grupos vulneráveis, como pessoas em situação de rua ou com dependência de drogas. O UOL visitou o local, que é bastante amplo. Além do edifício principal, há um outro, de dois andares, que era usado para educação religiosa de crianças e adolescentes, que também foi oferecido às autoridades.

"Estamos prevendo que a calamidade de saúde trará uma calamidade social sem precedentes", afirmou Ricardo Gondim, que também é presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos.

O anúncio vem em meio à polêmica criada pelo pastor e empresário Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo - que se negava a interromper os cultos, mesmo com a orientação do governador Wilson Witzel de evitar aglomerações. Nesta quinta (19), o juiz Marcello de Sá Baptista negou um pedido do Ministério Público do Rio de Janeiro que pedia o fechamento dos templos. Diante da polêmica, Malafaia afirmou que vai fechá-los por conta própria.

Em São Paulo, a Justiça determinou, nesta sexta, que o poder público proíba a realização de missas, cultos e atos religiosos que reunam fieis, atendendo a pedido do Ministério Público de São Paulo.

O objetivo das autoridades de saúde têm sido retardar o avanço do coronavírus para não sobrecarregar postos e hospitais e, assim, evitar mortes.

Outras igrejas atenderam às recomendações do MP-RJ e suspenderam atividades com o público. Dom Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio, por exemplo, determinou que as missas católicas sigam sendo realizadas, mas sem presença dos fiéis e de portas fechadas. Uma opção dada é que elas sejam transmitidas via redes sociais.

Questionado da razão de outras igrejas negarem-se a colaborar, neste momento de pandemia, Gondim afirmou que isso faz parte de "um esforço para mostrar que a teologia que vendem não é uma ilusão". Segundo ele, alguns líderes religiosos afirmam que se as pessoas forem aos seus cultos, estarão seguros da Covid-19 e não terão com o que se preocupar. Receberão um "upgrade" na vida.

Esses líderes religiosos não podem, simplesmente, desistir dessa ideia e mandar os fieis para casa, segundo ele. "Porque, se não insistirem nisso, depois que o coronavírus passar, como vão continuar pregando essa justificativa?"

"Estamos diante do mesmo dilema da peste bulbônica na Europa da Idade Média. Acreditava-se que os mosteiros eram santuários de proteção, mas eles se tornaram vetores de transmissão da peste, com padres e monges expostos à praga. Agora, a história se repete."

O pastor revela que, com a falta de doações, a igreja ficará em uma situação financeira delicada.

"Mas não estamos dispostos a sacrificar os ensinamentos de Deus e a saúde dos próprios fiéis em nome de preservar a igreja da insolvência financeira. Se uma comitiva presidencial se tornou um vetor de transmissão [até agora, foram 22 os membros da viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos que testaram positivo para o coronavírus], imagine as milhares de pessoas que vêm até nós aos finais de semana."

"Se tivermos que quebrar, quebramos junto com todo mundo. Da mesma forma, que temos que trabalhar para que todos se salvem também. Essa é a hora de mostrar o estofo do nosso cristianismo", conclui.

Post atualizado às 23h30, do dia 20/03/2020, para inclusão de informações.

Leonardo Sakamoto