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Covid-19: Dois trabalhadores bolivianos de oficinas de costura morrem em SP

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

08/04/2020 17h37

Dois trabalhadores bolivianos que atuavam em oficinas de costura morreram em virtude da Covid-19, entre esta terça (7) e quarta, em Guarulhos (SP) e na capital paulista.

"Eles se sentiram mal. Por falta de informação, chegaram tarde ao hospital, quando não havia muito mais o que fazer. Entubaram, mas não resistiram", afirma Roque Pattussi, coordenador do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (Cami).

"Nas oficinas de costura mais pobres, não há rádio ou televisão ligados para passar o mínimo de instrução sobre a doença. Eles acabam perdendo a vida por falta de informação adequada", avalia. "Não sabem identificar os sintomas, quando devem ir a uma Unidade Básica de Saúde ou a um pronto-socorro de hospital."

Roque Pattussi afirma que eles estão acompanhando o caso de outros trabalhadores estrangeiros pobres internados em estado grave com Covid-19 e sem perspectivas de melhora.

O Ministério da Saúde anunciou a confirmação de mais 133 óbitos por Covid-19 nas últimas 24 horas. Até agora, são 800 mortes no Brasil (428 apenas em São Paulo) e 15.927 casos oficiais.

Diante da situação, há dois temores para as organizações da sociedade civil que atuam junto a esse público. Primeiro que a infecção se prolifere. Depois, que as pessoas não tenham recursos para se sustentar durante a crise por serem estrangeiros sem documentos de permanência.

Os dois bolivianos trabalhavam em oficinas de costura quando tiveram seus primeiros sintomas - podem, portanto, ter transmitido para colegas quando estavam assintomáticos. O Cami está procurando essas pessoas para informá-las.

Vale lembrar que há oficinas em que o ambiente é insalubre, com muitas pessoas costurando lado a lado, sem ventilação ou higiene - contexto ideal para a proliferação do coronavírus. Como parte delas opera irregularmente, trancam portas e janelas com medo da fiscalização.

Mas, da mesma forma, há oficinas que passaram por processo de regularização e operam dentro das normas fiscais e trabalhistas. O Cami informa que há uma rede que está contribuindo com os esforços de combate ao coronavírus e estão confeccionando máscaras e equipamentos de proteção individuais para empresas, redes de farmácias e hospitais.

"Há oficinas com trabalhadores migrantes, em situação protegida, para a produção de equipamentos essenciais para combater o coronavírus", afirma o coordenador do Cami.

Quem quiser fazer encomendas a essas oficinas, pode entrar em contato, por WhatsApp, com o centro pelo número: (11) 96729-4238.

Renda básica emergencial

Com as oficinas de costura paradas, por conta da quarentena imposta pelo governo estadual, reduz-se a velocidade de contágio pelo coronavírus. Mas os trabalhadores informais ficam em uma situação econômica difícil porque não sabem se poderão acessar à renda básica emergencial.

Entidades da sociedade civil solicitaram ao governo federal um posicionamento quanto ao pagamento do benefício a trabalhadores sem CPF ou documentos de autorização de residência e de trabalho no país.

"Fazendo as contas, chegamos a 24 mil pessoas na informalidade completa, que trabalhavam também para oficinais informais. Como eles vão preencher o cadastro para receber a ajuda de R$ 600,00 por mês sem documentos?", indaga Pattussi.

Questionado pelo UOL, o Ministério da Cidadania informou que é necessária a apresentação de um CPF regular para requerer o benefício, de acordo com a lei aprovada pelo Congresso Nacional - exceto para inscritos no Bolsa Família. E que mudanças na lei precisam passar pelo crivo de deputados e senadores.

"Os estrangeiros que chegam ao país em situação de risco social ou na condição de refugiados são acolhidos nos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), onde são inseridos no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), para ter acesso, por exemplo, ao benefício do Bolsa Família. Lá também são orientados a fazer a documentação que lhes permita ter uma vida legal no país", afirmou o ministério à coluna.

De acordo com os técnicos do Cami, os trabalhadores informais de oficinas de costura serão os últimos a reconquistarem seus empregos. Passada a crise e reativada a cadeia do vestuário, haverá emprego para trabalhadores formais em três meses e, para os informais, em cinco, segundo eles, nesse setor. Por isso, precisam de acesso ao benefício como os brasileiros.

Vale ressaltar que são esses trabalhadores que produzem nossas roupas, não raro sub-remunerados, portanto o atendimento a eles em tempos de crise não é um favor.

Mais de 40 instituições bolivianas estão organizando, em parceria com o Cami, coletas de doações de alimentos e logística para que cheguem às famílias que mais precisam.

Junto com os alimentos, vão panfletos de informação sobre a prevenção ao coronavírus em português, espanhol e francês. Quem quiser doar alimentos ou recursos, pode entrar em contato pelo mesmo número de WhatsApp acima.

Leonardo Sakamoto