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Bolsonaro avalia usar inquérito da facada para explicar demissão de Valeixo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/04/2020 15h36

Após Sergio Moro se demitir acusando Bolsonaro de cometer crime de responsabilidade ao interferir indevidamente na Polícia Federal, o presidente anunciou uma coletiva às 17h desta sexta (24). Afirma que "restabelecerá a verdade sobre a demissão" do diretor-geral da instituição, Maurício Valeixo, e do próprio ministro da Justiça de Segurança Pública. É possível, de acordo com fonte no governo que conversou com a coluna, que o presidente venha a usar a investigação sobre o atentado cometido por Adélio Bispo de Oliveira contra sua vida, na campanha eleitoral de 2018, na justificativa.

Após investigação, a PF apontou que Adélio Bispo de Oliveira agiu sozinho e sofria de transtornos mentais. O presidente criticou várias vezes a instituição por não trazer a identidade de um mandante, nem uma trama política por trás do atentado.

Disparos organizados de mensagens de WhatsApp para grupos bolsonaristas afirmam que o presidente da República demitiu Valeixo - pivô da saída de Moro - por que o diretor-geral estaria "escondendo" uma conspiração por trás da facada sofrida por ele, em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG).

"Valeixo é aquele que disse que Adélio agiu como louco, um lobo solitário no ataque ao presidente e que não havia ninguém financiando o 'maluco', mas o PGR [procurador-geral da República, Augusto] Aras não se deu por satisfeito e deu continuidade às investigações", diz um trecho padrão das mensagens. Ela teria sido bombada pelo Gabinete do Ódio - como é chamada a estrutura montada no Palácio do Planalto para defender o presidente e atacar seus adversários nas redes sociais.

Indignado pelos inquéritos apontarem para a ação de um lobo solitário, Bolsonaro se reuniu, por exemplo, no dia 12 de junho do ano passado, com Valeixo e Moro para cobrar mais investigações sobre seu caso. Sobre o encontro, disse o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros: "o presidente entende que a PF tem total capacidade de, aprofundando as investigações, deliberar o mais rápido possível conclusões efetivas do caso. É nesse sentido que o presidente trabalhou o seu diálogo com o doutor Valeixo". 

Adélio foi considerado inimputável por transtorno mental pela 3ª Vara da Justiça Federal em Juiz de Fora, mas está preso para "tratamento psiquiátrico" por tempo indeterminado.

Improbidade administrativa

Na entrevista coletiva em que anunciou a saída de seu governo, na manhã desta sexta, Moro revelou que Bolsonaro sabia que estava interferindo politicamente na Polícia Federal ao demandar a troca de diretor-geral.

Desde que assumiu, o presidente vem tentando engolir instituições de monitoramento e controle, como a Polícia Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Receita Federal, Procuradoria-Geral da República. Desta vez, a razão seria proteger os filhos.

O senador Flávio Bolsonaro está envolvido em denúncias de desvios de recursos públicos via "rachadinhas" dos salários de servidores públicos. E o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro são acusados de atuar na desinformação nas redes sociais e em linchamentos digitais de autoridades e jornalistas.

Em seu discurso de saída, na manhã desta sexta, Sergio Moro não apenas descolou Bolsonaro do combate à corrupção, mas denunciou pressão por parte dele para manipular a Polícia Federal, indicando tentativa de obstrução em investigações por parte de Bolsonaro. Na prática, Moro imputou um crime de responsabilidade, ao vivo, na TV.

Colaborou Rodrigo Ratier.

Leonardo Sakamoto