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Bolsonaro berra com jornalistas para esconder culpa por mortos da covid-19

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

05/05/2020 12h30

Jair Bolsonaro nos ensinou que, quando ele surta em público, atacando alguém ou alguma coisa com um discurso ensaiado, temos que olhar também para o outro lado. Ou seja, algo que ele quer esconder com as repercussões do seu surto. É uma técnica rudimentar de nuvem de fumaça, mas se encaixa bem em suas aptidões.

Na manhã desta terça (5), o presidente da República berrou com a reportagem da Folha de S.Paulo, mandando os jornalistas calarem a boca e atiçou sua claque, que também atacou a imprensa. Ele negou que tenha demandado a troca do superintende da Polícia Federal no Rio de Janeiro - antigo desejo seu. A dificuldade de fazer essa substituição foi um dos motivos de insatisfação com o ex-diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, e com o ex-ministro da Justiça, Sergio Moro.

O atual superintendente, Carlos Henrique Oliveira, foi convidado para ser o diretor-executivo da instituição. Uma mudança espertinha, que garante um álibi para a interferência na PF a fim de colocar alguém mais alinhado à necessidade de ficar de olho nos interesses do presidente e de sua família no seu Estado-base.

Há um efeito colateral desejado nisso tudo. Enquanto ele grita com a imprensa, apoia manifestações que pedem um golpe militar, faz vistas grossas para funcionário do seu governo que agride enfermeiras, ameaça o Supremo Tribunal Federal, não precisa responder sobre os mais de 7,3 mil mortos oficiais por Covid-19. O número é subdimensionado, contudo - de acordo com pesquisadores, o real pode ser nove vezes maior.

Ele tem menosprezado o coronavírus e bombardeado sistematicamente as medidas de isolamento social que evitam sobrecarga no sistema de saúde e ajudam a reduzir a quantidade de óbitos. Ao mesmo tempo, esforça-se para terceirizar a responsabilidade pelos efeitos sanitários e econômicos da pandemia a governadores e prefeitos.

Ao mesmo tempo, sua demora em garantir ajuda a trabalhadores informais e formais atingidos e micro e pequenas empresas prejudicadas semeou caos social e econômico. Muitos não conseguiram acesso ao auxílio emergencial porque o sistema digital simplesmente não os reconhece.

Quanto mais as medidas de isolamento horizontal surtem efeito, reduzindo o impacto da pandemia, mais Bolsonaro diz que elas não servem para nada. Vende isso como a "prova" de que estava certo em chamar a pandemia de "gripezinha" e que a paralisação de atividades não essenciais era desnecessária. Quer se beneficiar daquilo que sistematicamente ataca.

"E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?", perguntou o presidente da República no último dia 28.

Ficar quieto e não atrapalhar ao invés de torturar a República, assassinar a democracia e criar cortinas de fumaça para esconder sua incompetência na tragédia humanitária que vivemos. Só isso.

Leonardo Sakamoto