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Covid: Brasil chega a 1 milhão de casos com Bolsonaro tirando o corpo fora

Live semanal do presidente Bolsonaro - 18/06/2020                              - REPRODUÇÃO
Live semanal do presidente Bolsonaro - 18/06/2020 Imagem: REPRODUÇÃO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

19/06/2020 15h02Atualizada em 19/06/2020 20h36

O Brasil ultrapassou a marca de 1 milhão de infectados pelo coronavírus enquanto Jair Bolsonaro colocou em dúvida, mais uma vez, a quantidade de vítimas pela covid-19. E, novamente, tirou o corpo fora da responsabilidade por ostentarmos a segunda posição global em números de doentes e de mortos.

Foram 1.032.913 contaminados e 48.954 mortos de acordo com a totalização, desta sexta (19), do Ministério da Saúde. No começo da tarde, o consórcio dos veículos de imprensa, que realiza uma contagem própria junto às secretarias estaduais de Saúde, já havia avisado que o país tinha alcançado o primeiro milhão. De acordo com o consórcio, são 1.038.568 casos e 49.090 óbitos. Esses são números oficiais, claro, pois a quantidade real de casos é bem maior considerando a subnotificação.

Claramente abatido após a prisão de seu amigo de longa data e antigo faz-tudo da família, Fabrício Queiroz, e da demissão do ministro da Educação, Abraham Weintraub, o presidente da República tentou minimizar a gravidade da situação rediscutindo os números, em sua na live semanal realizada nesta quinta (18).

"Temos declarações de diretores de hospitais dizendo que 40% do que entrou no óbito como covid-19 não era covid-19. Isso é muito triste porque os números, dessa forma, não traduzem as políticas que prefeitos e governadores têm que adotar na ponta da linha", afirmou.

As políticas às quais ele se refere são as medidas de isolamento e distanciamento social adotadas por gestores estaduais e municipais no combate à pandemia. Ele, que vem criticando duramente as quarentenas, defende o retorno imediato ao trabalho, temendo que o desemprego e a queda acentuada do PIB possam inviabilizar seu governo e sua reeleição.

Também defendeu-se das acusações de que o Ministério da Saúde quis maquiar os números para reduzir o impacto de sua divulgação junto à população: "nós queremos mostrar os números reais". Entenda-se por "reais" aqueles que cabem na narrativa oficial do Estado brasileiro. Após a mudança na divulgação dos dados, que representou uma redução na transparência, o STF obrigou o governo a voltar atrás.

O presidente aproveitou para jogar nas costas de prefeitos e governadores a conta da crise (de novo), afirmando que o Supremo Tribunal Federal determinou que cabe a eles a condução da política de combate ao vírus. Na verdade, os ministros afirmaram que Estados e municípios também podem determinar quais atividades são essenciais durante a crise, garantindo o seu fechamento. Afirmar que a política de combate ao vírus se resume a isso mostra uma visão estreita de país.

"Como presidente da República, coube a mim apenas mandar dinheiro a Estados e municípios. Praticamente quase nada além disso", disse.

Não é verdade. Ele que não fez praticamente quase nada além disso, ignorando sua responsabilidade no planejamento de uma resposta nacional à doença, articulando prefeitos, governadores e os outros poderes da República para atuarem de forma integrada.

Da compra e distribuição rápida e correta de equipamentos hospitalares, passando pelo fechamento de aeroportos no momento certo e a adoção de um cronograma de quarentena e bloqueio total de regiões e atividades, de acordo com indicadores sanitários, até testes em massa e o monitoramento da população, muito se esperava do presidente. Poderia ter salvo vidas. Preferiu adotar outro caminho.

Primeiro, tratou a doença como "fantasia". Depois, "gripezinha". Daí, veio a fake news de que caixões estavam sendo enterrados vazios. De lá, que havia uma conspiração contra a adoção da cloroquina em larga escala. A partir de então começou com a justificativa de que "todo mundo morre um dia". Neste momento, o negacionismo do presidente se dedica a criticar a contagem de mortos. Toda essa energia criativa para terceirizar responsabilidades poderia estar sendo usada em medidas para salvar vidas.

Bolsonaro ainda teve tempo de tripudiar, mais uma vez, a Organização Mundial de Saúde (OMS), dizendo que ela está "deixando muito a desejar", reclamando de informações desencontradas e que o trabalho da entidade não tem sido feito com base na ciência. Além de distorcer informações divulgadas pela entidade, ele ignora que estamos diante de uma doença nova que, por mais que seja de uma linhagem já conhecida, traz características que ainda são um desafio para pesquisadores.

Já seria, portanto, difícil estabelecer protocolos de tratamento e de prevenção com todos os líderes colaborando. Imagine então tendo que enfrentar o vírus e governantes que tomam decisões com base no achismo e em suas conveniências políticas, ostentam em sua equipe ministros que não acreditam na ciência? Por aqui, temos aqueles que acham que mudanças climáticas são mentiras, imagens de desmatamento por satélite são deturpadas e a letalidade de coisinhas microscópicas, como vírus, são um mito.

Os casos continuam aumentando, mas o embate do presidente contra os fatos vem surtindo efeito e as atividades econômicas estão reabrindo. E o temor de uma segunda onda, que venha antes mesmo da primeira terminar.

"Morreu de covid-19 ou com covid-19?", perguntou nesta quinta, questionando números. Temos um sommelier de mortes ao invés de um presidente da República.

Leonardo Sakamoto