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'Esquema de cargos' de Bolsonaro reforça farsa da nova política, diz Freixo

Flávio Bolsonaro (à esquerda) e seu ex-assessor Fabrício Queiroz - Reprodução/Instagram
Flávio Bolsonaro (à esquerda) e seu ex-assessor Fabrício Queiroz Imagem: Reprodução/Instagram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/07/2020 15h43

"Queiroz é peça fundamental na estrutura indicada pela reportagem da Folha sobre os esquemas de nomeações de servidores no gabinete de Jair Bolsonaro, e na reportagem do G1, que mostra o funcionamento do Escritório do Crime", afirmou à coluna o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ). "Ele é o não-citado presente. Não apenas era o operador das 'rachadinhas', esquema de corrupção pelo qual a família desviou milhões em dinheiro público, mas é a ligação do clã do presidente com territórios dominados pelo crime organizado."

Meticulosa apuração de Ranier Bragon e Camila Mattoso, da Folha, publicada neste domingo (5), traz indícios de que a nomeação suspeita de assessores no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro pode ter sido lesivo aos cofres públicos. Ele contratou 110 nos quase 28 anos que permaneceu por lá, realizando 350 trocas de cargos com alteração salarial, mudanças abruptas de valores e exonerações de fachada.

Por exemplo, segundo a apuração, a campeã foi Walderice Santos da Conceição, que seria funcionária fantasma do gabinete e passou por 26 trocas. Ela foi flagrada vendendo açaí em Angra dos Reis (RJ), em horário de expediente do parlamento. "O presidente deve responder quais foram as mudanças do trabalho da Wal do Açaí que levaram a alterações em seu salário", diz Freixo.

"Um presidente que defende representar a 'nova política' foi um deputado que conviveu por quase 28 anos com práticas do subterrâneo da Câmara - práticas que são aquilo que o Brasil mais ojeriza", afirma o deputado federal.

"Queiroz era um funcionário da família e ajudava a gerenciar o esquema. Mas quem nomeava era o próprio deputado. Ou seja, da mesma forma que as contratações na Assembleia Legislativa do Rio passavam pela mão de Flávio, na Câmara passavam por Jair." Para Marcelo Freixo, tudo isso comprova a existência de uma organização, com uma estrutura consolidada.

"Quem trouxe Queiroz para a política? Quem o colocou no gabinete de Flávio? Quem manda de fato nos mandatos dos filhos? A resposta é óbvia e mostra que a prisão do ex-PM comprova que o presidente representa o que há de mais antigo e podre no sistema político brasileiro", diz.

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, arquivou, na quarta (1), uma interpelação judicial feita pelo vereador Carlos Bolsonaro para que Freixo revelasse quais crimes teriam sido cometidos pelo presidente e seus filhos, de acordo com uma postagem do deputado. "Sobre o questionamento, sugeri a Carlos que fosse ao presídio em Bangu perguntar a Queiroz", afirmou à coluna.

Para ele, que presidiu a CPI das Milícias quando deputado estadual na Assembleia do Rio, a prisão de Queiroz deixou Jair Bolsonaro mais abatido do que as crises provocadas pelas demissões de importantes ministros do seu governo.

"O que explica esse silêncio inédito? O medo diante da constatação de que a prisão de Queiroz provocará o desmoronamento da ideia de que ele representa uma nova política. Afinal, o presidente só venceu a eleição porque conseguiu, depois de 2013, se apresentar como um candidato antissistema", avalia. De acordo com Freixo, "o ex-policial militar é a tampa do bueiro e Bolsonaro sabe que, agora, o esgoto está correndo a céu aberto, expondo ao país à podridão do sistema político carioca, uma mistura de crime organizado, polícia e política".

Também neste domingo, levantamento de Leslie Leitão e Marco Antônio Martins, do G1, mostra que a polícia e o Ministério Público investigam um rosário de mortes cometidas pelo Escritório do Crime, que só passaram a ser realmente investigadas após a execução da vereadora Marielle Franco e do motorista, Anderson Gomes, em março de 2018.

Após deixar as Forças Armadas, Queiroz serviu no 18º Batalhão, de Jacarepaguá, com Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime - morto em fevereiro deste ano durante ação que tentava prendê-lo. A área do batalhão é dominada por milícias, segundo o deputado.

"Bolsonaro conheceu Adriano por meio de Queiroz, que ainda não havia sido colocado no gabinete de Flávio. A mando do presidente, seu filho, então deputado estadual, homenageou o criminoso com a mais importante honraria do Estado, a Medalha Tiradentes, entregue dentro da cadeia porque Adriano estava preso por assassinato", afirma Freixo.

"No mesmo ano, Bolsonaro fez um discurso no Congresso pelo qual chamou de herói o chefe do Escritório do Crime. Ali foram estabelecidas as relações, que se aprofundaram após Queiroz começar a operar dentro do mandato do primogênito do clã em 2007."

A ex-mulher e mãe de Adriano, por intermédio de Queiroz, se tornaram assessoras fantasmas no esquema de desvios de recursos públicos. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro, o matador teria repassado R$ 400 mil ao ex-PM.

Vale lembrar que a filha de Queiroz trabalhava no gabinete de Jair Bolsonaro, em Brasília, enquanto atuava como personal trainer no Rio de Janeiro. Ela repassou a maior parte do salário ao pai.

E que Queiroz depositou um cheque de R$ 24 mil na conta da, hoje, primeira-dama, Michelle Bolsonaro. O presidente diz que é devolução de parte de um empréstimo, mas nunca provou isso e atacou repórteres que cobraram dele um comprovante. "Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?", disse.

Leonardo Sakamoto