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Leonardo Sakamoto

Além de comprar imóveis, 'rachadinhas' de Flávio e Queiroz viraram votos

Reprodução/Instagram
Imagem: Reprodução/Instagram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/11/2020 10h54

O dinheiro público desviado pelo esquema encabeçado por Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e operado por seu ex-assessor Fabrício Queiroz não apenas se transformou em imóveis, mas também ajudou a elevar o então deputado estadual ao Senado Federal em 2018.

Pagamentos a cabos eleitorais constam na quebra de sigilo bancário de Queiroz determinada pela Justiça do Rio no processo que investiga as "rachadinhas", de acordo com reportagem divulgada, nesta segunda (9), pelo núcleo de jornalismo investigativo do UOL.

Ele comprovou com entrevistas, textos e vídeos em redes sociais que essas pessoas trabalharam efetivamente na campanha de Flávio Bolsonaro. Foram 15 transferências da conta de Queiroz para elas, num total de R$ 12 mil, em setembro e outubro de 2018. Isso sem contar os saques em dinheiro vivo, que impossibilitam o rastreamento de seu uso.

A conta é a mesma em que, segundo a reportagem, ele recebia a devolução compulsória de parte dos salários dos funcionários públicos do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa. Ou seja, além da origem problemática do dinheiro, como os pagamentos não foram declarados à Justiça Eleitoral, também haveria caixa 2.

O Ministério Público, que pediu na denúncia que acusa o senador de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, que, ao final, ele perca o seu mandato, precisa investigar não apenas esse caixa 2, mas as ramificações dele com outras candidaturas.

A assessoria de Flávio Bolsonaro disse ao UOL que "todos os pagamentos da campanha de 2018 foram registrados junto à Justiça Eleitoral e estão dentro das regras" e que ele "desconhece qualquer tipo de pagamento que não tenha cumprido as determinações legais".

Porém, o próprio Queiroz, em depoimento por escrito que entregou ao Ministério Público, em 28 de fevereiro de 2019, já tinha confessado que recolhia parte dos salários dos funcionários do chefe para remunerar, de maneira informal, "assessores" na base eleitoral de Flávio.

A isso, Queiroz deu o nome de "desconcentração de remuneração". Disse que não acreditava ter cometido uma ilegalidade, pois o objetivo era "multiplicar e refinar os meios de escuta da população por um parlamentar".

Ou seja, ele afirmou que fazia algo ilegal - desviar recurso público do salário dos funcionários do gabinete para benefício eleitoral de Flávio - a fim de afastar denúncias de algo mais grave ainda aos olhos do público: que estava operando como laranja para viabilizar o desvio de dinheiro público para aumentar o patrimônio pessoal de membros da família Bolsonaro.

O desenrolar das investigações mostrou que as duas finalidades existiram ao mesmo tempo.

"O peticionante [Queiroz] entendeu que a melhor maneira de intensificar a atuação política seria a multiplicação dos assessores de base eleitoral, valendo-se, assim, da confiança e da autonomia que possuía para designar vários assistentes de base, a partir do gerenciamento financeiro dos valores que cada um destes recebia mensalmente", afirmou sua defesa.

Na época, ficou a indagação de como isso aconteceria, o que a apuração do UOL mostra agora.

Como o senador tem base eleitoral também em área controlada por milícias, na zona oeste do Rio, seria importante o Ministério Público verificar se houve transferência de recursos para milicianos com essa finalidade. Policiais e militares criminosos que fazem parte desses grupos são conhecidos por táticas de "convencimento" de eleitores.

Vale lembrar que, na denúncia, o MP incluiu na organização criminosa chefiada por Flávio, o falecido miliciano Adriano da Nóbrega, então chefe do Escritório do Crime - grupo de matadores de aluguel.

No depoimento do ano passado, Queiroz livrou a cara do chefe, dizendo que a "arquitetura interna do mecanismo" era dele mesmo.

Por essa justificativa, Flávio Bolsonaro é apresentado como um fantoche nas mãos do ex-assessor. Só faltou dizer que são de Queiroz os imóveis comprados com esses recursos e que estão com a família Bolsonaro. Ou que o pagamento que o ex-assessor fez das mensalidades dos planos de saúde e da escola das filhas do senador, durante anos, foi um mimo a ele.

A história revelada pelo UOL, nesta segunda, reforça que a "rachadinha" não ajudava apenas a enriquecer Flávio Bolsonaro, mas também contribuiu para sua eleição em 2018. Ou seja, ele pode ter conquistado o direito de representar os interesses do Estado do Rio de Janeiro com a ajuda de uma ilegalidade, por sua vez, financiada com recursos ilegais. Uma cascata de ilegalidades.

Por fim, os desvios envolvendo Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz são de valores menores que os de outros escândalos da República - o que vem sendo dado como motivo, inclusive, para seus apoiadores passarem pano na história. Isso não reduz a gravidade desses atos, apenas reforça a posição lateral em que a família Bolsonaro esteve na política nacional até a eleição de Jair.

O caso não seria como o de "ladrões de galinha", que cometem um crime para aplacar a fome, mas de um esquema que assaltou salários de funcionários talvez porque não tinha a oportunidade de acesso a algo maior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL