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Leonardo Sakamoto

Subnotificação de covid-19 no Brasil pode bater 60 mil mortes, diz Fiocruz

30.mai.2020 - Corpo de vítima do coronavírus é sepultado no Cemitério Municipal Recanto da Paz, em Breves, Ilha de Marajó, no Pará - Tarso Sarraf/Estadão Conteúdo
30.mai.2020 - Corpo de vítima do coronavírus é sepultado no Cemitério Municipal Recanto da Paz, em Breves, Ilha de Marajó, no Pará Imagem: Tarso Sarraf/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/01/2021 13h13

Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostram que 2020 registrou 258.209 óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), que inclui a covid-19. Isso representa quase 253 mil mortes a mais que o previsto para o ano com base no que havia acontecido em 2018 (5.473) e 2019 (5.279).

No mesmo período em 2020, o Ministério da Saúde registrava 186.649 óbitos por covid-19. Os números ainda não representam a totalização do ano, mas garantem um retrato aproximado.

A diferença entre o "excesso" de óbitos por SRAG e a quantidade de mortes decorrentes do coronavírus é de 66 mil. De acordo com Diego Xavier, pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação em Saúde da Fiocruz, "a maior parte desse número é potencialmente subnotificação de covid-19".

Ele explica que os dados levantados pelo InfoGripe, da Fiocruz, atualizado em 22 de dezembro, serão cruzados com outras bases para entender o tamanho real dessa subnotificação. E que uma parte desse excesso é possivelmente causada por doenças que foram registradas como SRAG por terem características semelhantes.

Uma das hipóteses é que, no início da pandemia, profissionais de saúde ficaram mais sensíveis ao se depararem com determinados sintomas e preferiram adotar o diagnóstico de SRAG. Vale lembrar que, naquele momento, havia menos informação disponível sobre a covid-19. E a falta de testes e de equipes preparadas para analisar as coletas também dificultaram o diagnóstico.

Com os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade, do SUS, será possível verificar se houve diminuição do número de óbitos por problemas cardíacos, pneumonia, tuberculose, influenza, entre outros, e, dessa forma, constatar quanto desse aumento de SRAG foi de outras doenças com diagnóstico equivocado e quanto é subnotificação de covid-19.

DataSUS vai mostrar tamanho exato da subnotificação

A totalização dos dados pelo DataSUS (mais exatos que as informações de registro civil, que têm sido usadas em uma guerra de versões nas redes sociais) levaria mais de um ano, mas deve ser feita de forma mais rápida. Nos próximos meses, devemos ter o número exato da subnotificação.

Esse total não será pequeno. O pesquisador da Fiocruz cita o exemplo do Rio de Janeiro, em que os óbitos por outras doenças se mantiveram no mesmo patamar dos anos anteriores — inclusive aquelas por SRAG.

Capitais e interior se igualaram em relação ao estágio da pandemia

Diego Xavier aponta que chegamos a uma situação de "sincronização das curvas epidêmicas", com o aumento de óbitos pela covid-19 ocorrendo nas capitais e regiões metropolitanas e no interior.

Vale lembrar que o coronavírus entrou no Brasil através dos aeroportos das grandes cidades e foi sendo interiorizado. Enquanto grandes cidades estavam com pico, locais mais distantes permaneciam praticamente livres da doença. E, no momento em que as mortes pela pandemia caíam nas capitais, elas passaram a crescer no interior.

Esse descompasso ajudou a evitar um colapso do sistema de saúde, pois permitia a transferência de pacientes de grandes cidades ao interior e vice-versa a fim de reduzir a pressão por UTIs.

"Sincronização" da pandemia deve impactar hospitais novamente

Agora, contudo, com a maior circulação de pessoas por conta da flexibilização das quarentenas e das campanhas eleitorais e, no final de dezembro, das festas de Natal e do Ano Novo, o vírus circula em cidades grandes e pequenas simultaneamente. E o país caminha no mesmo ritmo de aumento óbitos desde novembro.

O mesmo padrão está sendo visto em países da Europa. De acordo com Diego Xavier, as cidades italianas também estão sincronizadas, grandes e pequenas.

"Nos próximos meses, a busca por assistência especializada pode aumentar simultaneamente, nas regiões metropolitanas e no interior, provocando novo colapso do sistema de saúde", afirma nota da Fiocruz sobre o tema.