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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Após 1.452 mortes em 24h, Bolsonaro sugere que brasileiros engulam o choro

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

12/02/2021 02h55

"Não adianta ficar em casa chorando, não vai chegar a lugar nenhum", afirmou Jair Bolsonaro, nesta quinta (11), quando o país registrou 1.452 óbitos por covid-19 em 24 horas. Em outras palavras, esqueça os mortos e pare de chorar.

É insensibilidade? É. Mas pelo menos, desta vez, o presidente da República não marcou a chegada de um número alto de mortes andando de jet ski no lago Paranoá, como fez em 9 de maio do ano passado, quando ultrapassamos 10 mil óbitos.

"Vamos respeitar o vírus, voltar a trabalhar, porque sem a economia não tem Brasil", disse na sequência. Só faltou completar dizendo que o trabalho liberta.

Durante a primeira fase da pandemia, a irresponsabilidade de alguns frigoríficos, mantendo a produção sem se preocupar com a saúde de seus empregados, fez com que se tornassem focos de disseminação de mortes por covid em municípios do Sul do país. Moral da história: sem a economia não tem Brasil, mas sem brasileiro não tem economia.

Enquanto isso, o auxílio emergencial, que poderia estar amenizando o aperto de muita gente que não consegue emprego porque há um vírus assassino, à solta, dançando com o diabo no meio na rua, não parece ser urgente. Prova disso é que o Ministério da Economia continua condicionando o seu retorno à aprovação de um ajuste fiscal.

Nesta quinta, mais balões de ensaio com propostas para o auxílio vieram a público, todas vinculadas a cortes de gastos que atingem em cheio o andar de baixo. No cinema, isso teria o nome de "Dr. Guedes ou Como Aprendi a Parar de me Preocupar com o Povo e Amar o Ajuste" - uma versão pornochanchada da comédia de guerra apocalíptica de Stanley Kubrick. Por aqui, é chantagem mesmo.

"Tem muito médico que usa a hidroxicloroquina, a ivermectina para o tratamento precoce", afirmou também o presidente na mesma live desta quinta. O Brasil havia acabado de descobrir, através de uma reportagem da Folha de S.Paulo, que o seu governo segue despejando milhões de reais em cloroquina na população, com a reiterada mentira de que o remédio funciona contra a doença. Enquanto isso, falta até remédio para transplantados.

Plantando feijões mágicos, ele vai colher uma população com problemas cardíacos e hepatite, efeitos colaterais dos dois medicamentos. O povo quer vacina? Que engula cloroquina e depois carregue uma comorbidade.

As ações de Bolsonaro permitiram que o Brasil atingisse 236.397 mortos. Se tivéssemos um hamster na Presidência da República, correndo dentro daquela rodinha o dia inteiro, a tragédia não teria sido tão grande. Pois o problema não foi apenas o que ele deixou de fazer, mas o que ele efetivamente fez para atrapalhar a prevenção ao vírus e atrasar a vacinação da população. O hamster não ia ajudar, mas também não ia provocar um morticínio.

O número de mortes desta quinta é o terceiro maior desde o início da pandemia, perdendo para os 1.554, de 29 de julho, e os 1.470, de 4 de junho. Quinta foi o 22º dia consecutivo com média móvel de óbitos acima de mil. Se ele continuar se esforçando em promover aglomerações, teremos um recorde muito em breve.

Sabe o que Jair fará quando atingirmos 1.500 mortos em um só dia em 2021? Vai preparar o terreno para chegarmos a 2 mil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL