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Leonardo Sakamoto

Após sufocar Manaus, Pazuello corre o risco de ganhar a Amazônia

                                  - Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

23/03/2021 02h46

A mera especulação do nome de Eduardo Pazuello, ex-ministro em exercício da Saúde, para chefiar um futuro Ministério Extraordinário da Amazônia é um insulto. Não admira, portanto, que esse balão de ensaio venha do governo Bolsonaro.

Enquanto moradores de Manaus sufocavam com a falta de oxigênio, que poderia ter sido evitada se houvesse monitoramento do governo federal, Pazuello pressionou para que fossem distribuídos lotes de hidroxicloroquina e ivermectina, remédios sem eficácia comprovada para a covid, à capital do Amazonas.

Como alguém que entrega vermífugo a um povo que clama por ar pode ocupar uma pasta voltada a garantir a qualidade de vida desse povo? Como alguém que envia vacinas do Amazonas para o Amapá e do Amapá para o Amazonas compreende as diferenças da região? Como um ministro que foi corresponsável por um massacre na pandemia pode prometer que vai cuidar da vida na tão maltratada na Amazônia Legal?

Como alguém que se mostrou ser apenas uma correia de transmissão fará algo de bom trabalhando para um presidente que, diante da Assembleia Geral das Nações Unidas, culpou populações tradicionais da Amazônia pelas queimadas feitas por grileiros e pecuaristas?

O general foi o boi de piranha entregue por Bolsonaro para poder continuar atravessando o rio sem sangrar. Para o seu lugar, o presidente já anunciou um candidato a fantoche, o cardiologista Marcelo Queiroga. Mas enquanto não encontra uma forma de garantir foro privilegiado a Pazuello, ele vai enrolando com esse limbo.

O fato da pasta responsável por combater a pandemia estar formalmente acéfala enquanto são registradas 2.298 mortes por dia, em média, na última semana é apenas um detalhe mórbido. Digo formalmente por que, como todos sabemos, Jair é o verdadeiro ministro da Saúde.

Pazuello foi um militar que, na maior guerra da nossa história, traiu seu país, garantindo todas as condições para que o inimigo, o coronavírus, avançasse território adentro, conquistasse espaço e matasse o seu povo. As gerações futuras vão saber disso por que faremos questão de contar.

Repito o que sugeri ao general: faça uma delação premiada, entregue Bolsonaro. Mais do salvar a sua biografia, coisa que não será mais possível, tenha dignidade e ajude a salvar o seu país.