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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro explora a miséria da Venezuela para encobrir a miséria do Brasil

Bolsonaro durante visita à Operação Acolhida, em Roraima - Reprodução/Facebook
Bolsonaro durante visita à Operação Acolhida, em Roraima Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/10/2021 15h39Atualizada em 26/10/2021 17h51

Enquanto o IBGE divulgava, nesta terça (26), que a inflação de outubro deve fechar com a maior alta para o mês em 26 anos e o último aumento da Petrobras levava o litro da gasolina a quase R$ 8 e o botijão de gás aos R$ 135 em algumas partes do país, Jair Bolsonaro resolveu dar destaque à miséria de... venezuelanos.

Segue à risca o Manual da Egípcia, produzindo mais uma miragem para enganar a população diante de seu imenso deserto de propostas para que o Brasil escape da areia movediça em que ele mesmo nos ajudou a afundar. E na qual estamos enfiados até o pescoço.

Explorando a pobreza dos refugiados, inclusive de crianças, Bolsonaro produziu mais uma peça de campanha eleitoral antecipada em visita às instalações da Operação Acolhida, em Boa Vista (RR) - apesar de negar que estava em campanha. Se a Justiça Eleitoral o multasse toda vez que faz isso, os recursos que desviou, via rachadinhas, já teriam sido totalmente devolvidos à sociedade.

Ver Bolsonaro afirmar que os refugiados "vêm para cá atrás de comida", o que é verdade, contrasta com os brasileiros que reviram caminhões de lixo atrás de comida por conta da crise que ele ajudou a criar. O presidente, contudo, não gosta de falar sobre o assunto e, quando ele é posto sobre a mesa, faz de tudo para arremessar responsabilidades para longe, aliás, seu esporte preferido.

Sem sua conta do YouTube, suspensa após ter mentido que vacina contra covid causa Aids (quando historiadores do futuro forem estudar nossa época, frases como esta provocarão um sentimento de dó para conosco), Jair transmitiu a visita pelo Facebook - que manteve o acesso do presidente à sua conta.

Na live, aproveitou para atacar Lula devido ao apoio do PT ao governo Nicolás Maduro. Com um rosário de candidatos a candidato da 3ª via que atacam o ex-presidente para tentar herdar a vaga do atual presidente no segundo turno, Jair tem que convencer seus seguidores, de tempos em tempos, que ele é o maior antipetista de todos.

A situação na Venezuela é péssima e o Brasil, se não tivesse aberto mão de ser um ator relevante no cenário regional, poderia ajudar a negociar uma solução política com o vizinho. Contudo, o presidente preferiu estimular a tensão, chegando quase às vias de fato com Maduro.

Temos um turista, um candidato e um sabotador, não um presidente. Bolsonaro ajudou a atrapalhar o combate à covid-19 com o objetivo de empurrar pessoas de volta às ruas para que a economia não atrapalhasse a reeleição. Ironicamente, isso tornou as quarentenas mais ineficazes, estendendo a pandemia e, com isso, a crise econômica. Além disso, o governo suspendeu o auxílio emergencial no final do ano passado, deixando as pessoas no relento no momento mais letal da covid-19.

Os ataques de Bolsonaro às instituições e a falta de um projeto de Guedes para a economia ajudaram a gerar instabilidade, o que elevou o preço do dólar. Isso tem impacto nos combustíveis, no gás de cozinha e nos alimentos.

Não por coincidência, ele fez sua micareta eleitoral no dia em que a CPI da Covid está votando o seu relatório final.

Se Jair e sua equipe gastassem trabalhando a mesma energia que usam para disfarçar que não trabalham, o Brasil não teria 606 mil mortos, nem tamanha fome e absurda inflação. Talvez até tivessem desenvolvido a cura para a covid-19.