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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro trata investidor como mané ao mentir que a Amazônia não pega fogo

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/11/2021 12h39

Ao tratar investidores estrangeiros como idiotas, Jair Bolsonaro mostra que o objetivo declarado de sua viagem ao Oriente Médio (em tese, atrair investimentos e aumentar as importações de produtos brasileiros), é conversa para boi dormir. Outros podem ter ido para fechar negócios, mas ele está a turismo.

"Nossa Amazônia, por ser uma floresta úmida, não pega fogo", afirmou a uma plateia de empresários, nesta segunda (15), em Dubai. Tipo, ignorem imagens de satélite, milhares de vídeos e fotografias, depoimentos de indígenas, ribeirinhos e moradores de cidades e nuvens de fuligem que escurecem os céus de metrópoles que provam o oposto do que eu disse.

Como toda mentira eficaz, a do presidente também usa um tantinho de verdade. A Amazônia é, de fato, uma floresta tropical úmida, o que dificulta incêndios naturais como ocorre no Cerrado. O que não significa que ela não pegue fogo, pois pega, fruto da ação humana conectada diretamente com o processo de desmatamento. O método é simples: o sujeito risca um fósforo em uma lata de óleo diesel deixada no meio do mato após extrair as árvores maiores e de alto valor comercial e começa um inferno.

Por exemplo, Daniel Camargos, da Repórter Brasil, revelou que os focos de incêndio que destruíram parte da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, nos dias 10 e 11 de agosto de 2020, foram provocados por produtores rurais de Novo Progresso, que se articularam em grupos de WhatsApp para financiar um incêndio generalizado naquela região. Eles fizeram uma vaquinha para dividir os custos do combustível e para contratar motoqueiros para espalhar as chamas, em um episódio que ficou conhecido como o 'Dia do Fogo'.

Ganha um banco de cabreúva, um quilo de picanha e uma saca de soja quem adivinhar em quem esse povo votou e vai votar para presidente.

Bolsonaro repete mentiras até que virem verdade. Ou para vencer pelo cansaço

Quando o presidente não entende nada de um assunto, e são os muitos os assuntos dos quais ele não entende nada, repete insistentemente frases entregues a ele por assessores ou aliados. Essa, de que a Amazônia não queima porque é úmida, é uma delas.

"É uma mentira essa história de que a Amazônia arde em fogo", disse ele, por exemplo, em 11 de agosto de 2020, mostrando a consistência com a qual exerce a função de Papagaio da República.

Ele aposta que a construção da realidade não brota de fatos, mas de sua narrativa. E, em sua narrativa, o salvo-conduto que ele entregou a madeireiros, garimpeiros, grileiros de terra, agricultores e pecuaristas ilegais não se traduz em salto nos índices de desmatamento e em queimadas.

Afirma gostar da passagem bíblica do "Conhecereis a verdade e ela vos libertará" (Evangelho de João 8:32), mas parece, de fato, se identificar com "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (João, de novo, 14:6).

O irônico é que sua declaração embute uma crítica ao próprio governo. Pois se a Amazônia não queima por conta própria e, ao mesmo tempo, ela vem ardendo em chamas, significa que ele vem permitindo que seus eleitores transformem a floresta em cinzas.

Permissão dada através do desmonte da estrutura da fiscalização do Ibama e do ICMBio, da punição a servidores públicos que buscam seguir a lei (como aconteceu com o delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva, que apontou o envolvimento do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com a exportação de madeira ilegal) e de seus discursos dando salvo-conduto a criminosos.

As mentiras ambientais não vêm de hoje e seu rol é extenso, não cabendo em um só texto. Falando em Amazônia, ele já culpou indígenas (inclusive em discursos na Assembleia Geral da ONU), ONGs e até o ator Leonardo DiCaprio pelas queimadas. Disse que tinha a "convicção" de que os dados de desmatamento (que explodiram desde o início de sua gestão) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais eram mentirosos e acusou o então presidente do órgão, o cientista Ricardo Galvão, de estar "a serviço de alguma ONG".

Presidente convidou empresários a visitarem a Amazônia. O que seria ótimo

No evento em Dubai, ele convidou empresários a virem conhecer a Amazônia para mostrar como ela está intocada - ladainha que vem repetindo desde que assumiu.

Em julho de 2019, por exemplo, ele convidou os líderes da Alemanha e da França, durante reunião do G-20, a voar de Boa Vista a Manaus. "Se encontrarem um hectare de devastação de terra, aí eles têm razão", disse.

Seria ótimo que ele levasse empresários e chefes de Estado estrangeiros para voar de Boa Vista a Manaus. Assim, poderíamos contar a eles que, naquela rota, ocorreu uma tentativa de genocídio do povo Waimiri-Atroari, que vive entre Roraima e o Amazonas. Durante a ditadura militar, que Bolsonaro tanto defende, milhares de indígenas foram executados em nome da implementação de grandes projetos na região.

Relatos colhidos de sobreviventes em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), por exemplo, contam que helicópteros sobrevoaram aldeias derramando veneno e detonando explosivos sobre centenas de indígenas reunidos para celebração de rituais de passagem. Depois disso, ataques a tiros, esfaqueamentos e degolas violentas praticadas por homens brancos fardados contra adultos e crianças sobreviventes. Tratores passaram, na sequência, destruindo tudo.

O MPF cobra que o Estado brasileiro assuma sua responsabilidade, adote medidas de reparação e de indenização pelas violências cometidas contra a etnia entre os anos 70 e 80.

Além dos ataques, as obras para a abertura da rodovia BR-174, ligando Manaus a Boa Vista e à Venezuela, levaram doenças para a população kinja (como eles se identificam). Muitos morreram sem apoio e a rodovia se tornou vetor de ocupação do Estado de Roraima. O relatório da Comissão Nacional da Verdade afirma, com base em dados oficiais, que houve uma redução de 3 mil, nos anos 70, para 332 indígenas nos 80. Se isso não é tentativa de genocídio, nada mais é.

Sobrevoando esse trajeto, o presidente e convidados não vão achar um hectare desmatado. Encontrarão uma estrada inteira.