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Leonardo Sakamoto

Moro nega culto à sua personalidade mesmo após se vender como novo Messias

Um boneco inflável de 20 metros que mistura a imagem do ministro Sergio Moro com o Super-Homem participou de atos pró-Lava Jato - Reprodução
Um boneco inflável de 20 metros que mistura a imagem do ministro Sergio Moro com o Super-Homem participou de atos pró-Lava Jato Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

30/11/2021 19h57

O ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Jair Messias Bolsonaro Sérgio Moro afirmou que nunca incentivou "qualquer culto à sua personalidade" em entrevistas ao jornal Folha de S.Paulo e à revista Crusoé por ocasião do lançamento de seu precoce livro de memórias, aos 49 anos. Apesar disso, adotou um discurso em que se vende como sucessor do Messias, afirmando que a sua candidatura é "um chamado, uma missão" e que seu nome está à disposição "para liderar um projeto que pretende ser de muitos".

Após afirmar que Lula e Bolsonaro se apresentam como uma "ideia" ou um "mito", Moro avaliou que, por outro lado, o discurso dele "apela muito mais à racionalidade do que a esse aspecto emocional". Mas não foi isso que aconteceu em 30 de junho de 2019, por exemplo. "Eu vejo, eu ouço", tuitou ele em meio a manifestações em defesa da Lava Jato convocadas por seus fãs em diversas cidades do país. Nelas, o boneco inflável gigante, com o corpo do Super-Homem e a cabeça do ex-juiz foi figura presente.

A sua declaração faz referência à passagem do livro de Êxodo, capítulo 3, versículo 7, em que diz que Deus estava vendo a aflição dos judeus no Egito e ouvindo seu clamor. Ressalte-se que eles eram seu povo escolhido. Na época, o detalhe foi captado pela reportagem da Jovem Pan.

O Êxodo tem pragas e recompensas, leis e punições, e um povo sofrido e humilhado que não é libertado por sua própria ação, mas que precisou de um líder que o retirasse da escravidão - ação que contou com intervenção divina. Cabe especular se Moro, ao parafrasear o versículo, viu a si mesmo como Moisés ou como Jeová.

O culto à personalidade pode passar pela ação da própria pessoa - atendendo a um desejo de poder ou por pura vaidade - mesmo que ela não reconheça isso. Naquele domingo, no ato que ocorreu na avenida Atlântica, no Rio, uma faixa dizia a Moro: "O senhor nos livrou das trevas", segundo registro da Folha de S.Paulo. O senhor não era o Deus cristão, mas Moro. O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, chamou o ex-juiz e hoje ministro Sérgio Moro de "herói nacional", durante o ato em Brasília.

O problema é que heróis não recebem auxílio-moradia. Não são chamados de "doutor", nem ficam irritados se interpelados por jornalistas. Não encaram a si mesmos como infalíveis, nem aceitam infláveis, pois sabem que esse tipo de julgamento não lhes cabe, mas à História. Pedem desculpas, reconhecem seus erros, creem que são menos do que são e não o contrário. Não vazam conversas obtidas de forma ilegal para ajudar no impeachment de uma presidente, não aceitam escutas em escritórios de advogados, não divulgam conteúdos de processos que podem ajudar o candidato que depois lhe dará um emprego de ministro.

Se tivesse lido a bíblia até o livro de Eclesiastes, ele teria aprendido, já no capítulo 1, versículo 2, que "vaidade de vaidades, tudo é vaidade".

O catador de material reciclável Luciano Macedo foi assassinado, em abril de 2019, ao tentar ajudar a família do músico Evaldo Santos Rosa, executado quando seu carro ser fuzilado por militares, no Rio - eles teriam sido confundidos com bandidos, mas estavam indo a um chá de bebê. Os militares foram condenados em outubro deste ano - o que talvez não aconteceria caso o "excludente de ilicitude", ou seja, a impunidade de agentes de segurança que matam sob forte emoção, pauta defendida por Moro quando ministro, fosse a regra.

Se Luciano fosse juiz, militar ou político seria chamado de herói. Mas não se encaixava no perfil exigido para o panteão. Ao final, cada sociedade merece os heróis e mitos que constrói para si. Incluindo aqueles que se dizem imbuídos de uma missão para salvar o restante de nós, convocando a sociedade para segui-los.

Quando percebermos que os grandes exemplos e as histórias que realmente inspiram estão ao nosso lado e não acima de nós, o país vai deixar de acreditar na fábula de que precisa de alguém que o salve.