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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro culpa Bruno e Dom Phillips pelo próprio desaparecimento no AM

Jornalista Dom Phillips e indigenista Bruno Araújo - Divulgação
Jornalista Dom Phillips e indigenista Bruno Araújo Imagem: Divulgação
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/06/2022 12h27

Jair Bolsonaro responsabilizou o indigenista Bruno Araújo Pereira e o jornalista inglês Dom Phillips por seu próprio desaparecimento, em entrevista ao SBT News, nesta terça (7). "Realmente... Duas pessoas apenas, em um barco, em uma região daquela, né, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados", afirmou.

Isso é um descaramento sem tamanho. Não se sabe até agora a causa do sumiço, mas o que sabemos bem é que foi o seu governo que deu um salvo-conduto a qualquer grupo que atropele as políticas de proteção ao meio ambiente e aos povos e comunidades tradicionais na Amazônia, tornando a região ainda mais violenta.

Aliás, a apreensão pelo desaparecimento de ambos, desde domingo (5), no Vale do Javari, Estado do Amazonas, é altíssima não só por causa das ameaças contra Bruno, mas também porque fiscais e repórteres, profissionais responsáveis por monitorar o cumprimento da lei e as ações do poder público, são hoje vistos como inimigos a serem abatidos na Amazônia.

Não que os conflitos não existissem antes da chegada do capitão ao poder, mas ele fez questão de jogar gasolina sobre o fogo com suas declarações, que empurraram garimpeiros para dentro de territórios indígenas, protegeram madeireiros e pecuaristas ilegais e grileiros de terra e deram um salvo-conduto a pescadores e caçadores predatórios.

Enquanto isso, sua gestão agiu sistematicamente para enfraquecer a fiscalização da Funai, do Ibama, do ICMBio, tratada como inimigos infiltrados no governo. E a ausência de Estado contribui para que traficantes e outros criminosos operem livremente, tocando o terror.

Bolsonaro também disse na entrevista que "a gente espera e pede a Deus que sejam encontrados brevemente" e garantiu que "as Forças Armadas estão trabalhando com muito afinco na região".

Balela. Quem, inicialmente, estava tocando as buscas eram os próprios indígenas com a ajuda de policiais militares dada a inoperância do poder público federal. O Exército chegou a soltar uma nota bizarra, afirmando que era capaz de fazer as buscas, mas aguardava ordens. Após muita pressão da imprensa, um contingente de forças de segurança foi enviado, mas até agora insuficiente para fazer frente ao desafio. E o tempo corre contra.

Tendo isso em vista, Bolsonaro - visto como ameaça ambiental global - deveria ser a pessoa mais interessada em ver os dois sãos e salvos. E dado ordens para que, neste momento, os céus daquela região da Amazônia estivessem coalhados de helicópteros e aeronaves e os rios e igarapés vasculhados por dezenas de lanchas e embarcações, usando centenas de agentes de segurança.

Porque se algo acontecer com eles, que estavam trabalhando porque o presidente não faz o trabalho dele, Bolsonaro será responsabilizado internacionalmente por isso. No Brasil de Jair, não é ele quem puxa o gatilho, mas é ele quem autoriza, com suas palavras, suas ações e inações, o ato.

E, neste caso, não adianta tentar terceirizar. O seu mimimi pode atingir incautos por aqui, mas vai ser difícil ele impor uma cortina de fumaça global.