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Madeleine Lacsko

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Combate ao privilégio branco justifica voto em branco privilegiado

Alckmin e Lula, no lançamento das diretrizes do programa de governo, em São Paulo - RICARDO STUCKERT
Alckmin e Lula, no lançamento das diretrizes do programa de governo, em São Paulo Imagem: RICARDO STUCKERT
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Madeleine Lacsko

Madeleine Lacsko é jornalista desde 1996. Participa dos think tanks Instituto Montese pela defesa da democracia e Sociedades Digitais e Relações de Poder, da GoNew.Co. Atuou como Consultora Internacional do Unicef Angola na campanha que erradicou a pólio no país, diretora de comunicação da Change.org para a América Latina, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. Trabalhou na Jovem Pan, Antagonista, CCR e Gazeta do Povo.

Colunista do UOL

05/08/2022 15h21

Esta semana uma socialite e uma professora universitária evocaram a necessidade de combater o "privilégio branco" como justificativa para suas escolhas políticas. São casos curiosíssimos.

A socialite, que é candidata pelo Partido Socialista Brasileiro, desdenhou da chapa feminina formada por Simone Tebet e Mara Gabrilli. Seriam apenas duas brancas privilegiadas, declarou, inaugurando a era do privilégio tetraplégico.

Hoje, Marcia Tiburi utilizar tentou malabarismo que justifique o apoio de Lula a André Ceciliano ao senado pelo Rio de Janeiro em detrimento de Alessandro Molon.

Não há nenhuma justificativa além da vontade de Lula. Ceciliano, além de estar atrás nas pesquisas, é o líder da lista do escândalo das rachadinhas, o mesmo de Flávio Bolsonaro. Cereja do bolo: tem feito eventos políticos ao lado do governador bolsonarista Claudio Castro em vez de apoiar o candidato de Lula, Marcelo Freixo.

Sobre o imbroglio, a candidata a governadora pelo PT no último pleito declarou no Twitter: "Evidentemente, o PT deve apoiar Freixo no Rio. A postura de Molon não nos leva a nada, nem o levará a lugar algum, pois ele não se elegeria para o Senado nem com todo o esforço. Por fim, o narcisismo do homem branco é um fator político a ser estudado."

Nos dois casos, há milhares de respostas emocionadíssimas nas redes sociais, concordando que já está insuportável e precisamos nos unir contra o pacto da branquitude.

Aliás, seja contra o privilégio branco ou o narcisismo do homem branco, a opção de voto é na chapa Lula-Alckmin, não na de Vera Lúcia e Kunã Yporã pelo PSTU.

A chapa Lula-Alckmin tentou, via Renan Calheiros, impedir a candidatura feminia Tebet-Gabrilli. E conseguiu impedir uma candidatura feminina ao governo cearense e uma indígena ao senado para agradar Eunício Oliveira, apelidado de "índio" na planilha da Odebrecht.

Essa pauta do pacto da branquitude, do narcisismo do homem branco ou do privilégio branco não vem dos movimentos sociais brasileiros. É importada de forma acrítica dos Estados Unidos pela elite progressista.

Temos racismo e opressão sim. Temos fartura de problemas próprios e sede de soluções reais para sofrimentos concretos de pessoas que existem. Mas a distância entre a elite progressista e o Brasil real é tanta que, além de importar solução, importa-se até problema. Nem o nosso problema presta o suficiente.

Na teoria importada dos Estados Unidos, reconhecer e apontar o privilégio branco é importante para a superação de preconceitos. Faz sentido, mas não há ainda um caso concreto de resultado positivo.

Há, no entanto, um precedente preocupante de relacionar privilégio a toda uma etnia mesmo que seja verídico, o genocídio em Ruanda, em 1994.

Durante todo o período colonial, os Bazungu - brancos alemães e belgas - privilegiaram a minoria étnica Tutsi sobre a maioria, os Hutus.

Acreditavam que essa etnia era mais inteligente, trabalhadora e confiável, o que reforçavam com uma boa dose de pseudociência. Os melhores empregos e oportunidades eram dos Tutsis, o que criou uma chaga social que não foi vencida ao final da colonização.

Nos meios progressistas, faz muito sucesso um vídeo em que Adama Dieng, ex-assessor especial da ONU para a Prevenção do Genocídio e ex-secretário do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, lembra que a carnificina não começa com o assassinato, começa com palavras.

No caso específico, eram palavras pelo fim do privilégio Tutsi. Depois, começaram a criar apelidos para os Tutsis, xingar e chamar por nomes de animais como ratos e baratas. No genocídio, foram 800 mil assassinatos, entre Tutsis e Hutus moderados, contrários à carnificina dos privilegiados.

A ideia de acusar o outro de privilégio é muito boa para interditar debates e sair por cima, afetar falsamente a virtude de lutar pela igualdade a tuitadas. Talvez seja um luxo caro demais.