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Maria Carolina Trevisan

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Covid-19: demora na vacinação limita acesso à escola e atrasa fala infantil

Bebês sofrem atraso no desenvolvimento da linguagem ao não interagirem com outras crianças e adultos - cokada/iStock
Bebês sofrem atraso no desenvolvimento da linguagem ao não interagirem com outras crianças e adultos Imagem: cokada/iStock
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

11/07/2021 04h00

Os primeiros anos da vida das crianças são cruciais para seu desenvolvimento. É na primeira infância — período que vai do nascimento aos seis anos — que se forma a base para todas as aprendizagens humanas, em especial, a comunicação.

Com a longa pandemia de covid-19 em vigência no Brasil, crianças que nasceram pouco antes do início dos casos e durante a disseminação do novo coronavírus podem ter atrasos no desenvolvimento da fala. As medidas de isolamento social necessárias para preservar a vida, como o fechamento das escolas e a limitação das atividades em grupo, tiveram reflexos no momento em que as crianças pequenas começam a se expressar por meio da linguagem. Quanto menos pessoas em casa, mais comprometida pode ter ficado a linguagem.

Isso é preocupante porque o início da fala destrava também outras áreas de desenvolvimento. Seu atraso, prejudica a qualidade da comunicação e a sociabilidade. "É um efeito dominó", explica a fonoaudióloga Esther Bianchini, especialista em motricidade orofacial e premiada internacionalmente em sua área. "Quanto menos a criança fala, mais tempo ela demora para assimilar novas palavras, montar frases e sentenças. Isso pode ter impacto em seu desenvolvimento social e emocional", alerta.

Na pandemia, Esther percebeu um aumento importante em seu consultório de crianças pequenas com dificuldade na comunicação. O transtorno é uma das consequências de terem ficado em casa, distantes do convívio social e da escola desde o começo da vida. Ao passarem todo o tempo com os pais, que já conhecem as demandas dos filhos, e pouco tempo com outros adultos e outras crianças, menos precisam se esforçar para se expressar. São compreendidas por meio de gestos por quem tem intimidade com elas.

Dessa forma, há menos estímulo para que elas comuniquem o que desejam. Sem a escola, esse incentivo também ficou mais restrito. O uso das telas (celular, tablet, computador, televisão) aumentou. A interação, portanto, mudou. Elas entendem tudo e não precisam falar nada para interagir com eletrônicos. O ensino online tampouco supre a demanda por convivência.

"A diminuição da exposição à comunicação oral afeta o aparecimento e aperfeiçoamento da fala, aprendizagem e até mesmo da capacidade de pensamento abstrato", relata artigo das pediatras Sulene Pirana e Renata Di Francesco, do Grupo de Trabalho de Desenvolvimento e Aprendizagem da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

Tudo isso tem consequências na qualidade de seu desenvolvimento social. Dessa forma, é importante que, com todos os protocolos de segurança contra a covid-19, as crianças retomem o convívio com outras crianças e outros adultos além dos pais. É também necessário que os pais treinem não falar por elas, um ímpeto muito comum e amoroso, mas que não contribui para o desenvolvimento da linguagem. Ao mesmo tempo, um dos meios de desenvolver a fala é conversando e interagindo com os filhos pequenos.

"O isolamento social também causou perdas na quantidade e qualidade de sons aos quais a criança é exposta. A diminuição dos ruídos de fundo (barulhos) pode ser benéfica para o aprimoramento da audição, porém quanto menos palavras escutar pior será o desenvolvimento do pensamento e da linguagem", explicam as pediatras.

Por volta dos 12 meses, o bebê começa a emitir as primeiras palavras. Os sons deixam de ser guturais e passam à fase labial. Até os 15 meses, é comum que as crianças falem aproximadamente 10 palavras, como mostra o livro "Saúde dos nossos filhos", do departamento de pediatria do Hospital Albert Einstein.

O caminho é conversar com os filhos, buscar ambientes comunicativos em que possam se manifestar e ser escutados. Pais e mães que notem atraso ou dificuldade de fala, devem procurar os serviços de saúde para que as crianças sejam avaliadas e os adultos recebam orientações, até termos novamente um dia a dia seguro.

Esse cenário preocupante é também consequência do descaso com a vacinação em massa no país. Os responsáveis por esse atraso começam a ser apontados pela CPI da Covid. A falta de imunização coletiva causa mortes que poderiam ser evitadas e outras questões que estamos conhecendo pouco a pouco. Esse comportamento negligente do governo Bolsonaro é muito mais grave do que podemos enxergar até agora. Quanto mais cedo a vacina chegar a mais gente, menos tempo ficaremos presos ao isolamento e à letalidade da pandemia.