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Maria Carolina Trevisan

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Isolado, Bolsonaro precisou se calar para evitar reação a seu golpismo

Bolsonaro está isolado diante da reação das instituições contra seus delírios golpistas - Reprodução
Bolsonaro está isolado diante da reação das instituições contra seus delírios golpistas Imagem: Reprodução
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Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

26/08/2021 13h59

O que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) conseguiu com sua incitação golpista foi, até agora, o isolamento. Precisou ficar calado em diversas oportunidades esta semana para evitar outra onda de reação em que o Supremo Tribunal Federal (STF), o Senado, os governadores, diferentes partidos políticos, os subprocuradores e ex-presidentes da República se unissem mais uma vez em oposição a ele.

Bolsonaro evitou se pronunciar inclusive em eventos nos quais se sente à vontade, como na celebração do Dia do Soldado, do "seu" Exército. O general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante, ao lado de Jair, remeteu à Constituição no discurso, sinalizando um posicionamento de respeito à democracia.

Afirmou que o Exército tem compromisso com os anseios da sociedade brasileira de "tranquilidade, estabilidade e desenvolvimento" e lembrou a necessidade de pacificação — o contrário de como atua Bolsonaro. O presidente teve de se calar.

Bolsonaro também foi obrigado a se recolher diante do Supremo. Depois de xingar o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), teve que recuar da ameaça de pedir ao Senado o impeachment do ministro. A derrota do governo na cruzada pelo voto impresso mostra que não há espaço para questionar o pleito eleitoral. Melhor para o governo não insistir nessa estratégia.

No Senado, a situação de Bolsonaro é igualmente complicada. Rodrigo Pacheco (DEM-MG), presidente da Casa, decidiu rejeitar o pedido de impeachment feito por Bolsonaro contra o ministro do Supremo Alexandre de Moraes e arquivou o processo. Foi elogiado na CPI da Covid, nesta quinta (26). "Uma atitude patriótica", afirmou o relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Para Pacheco, essa decisão significa um "marco de reestabelecimento das relações entre os Poderes, da pacificação e da união nacional que tanto nós reclamamos, que tanto nós pedimos, porque é fundamental para bem-estar da população brasileira e para a possibilidade de progresso e de ordem do nosso país". Bolsonaro perdeu.

O presidente está pagando o preço de ter forçado os limites da democracia. Precisou ficar quieto diante dos grupos que se uniram em oposição a ele, se enfraqueceu e se isolou. Mas isso não quer dizer que Bolsonaro tenha recuado, amenizado o discurso ou se convencido de que está errado. A reação desses atores é, no entanto, um sinal claro de que a defesa da democracia é mais importante que a disputa política.

No caso dos governadores, que solicitaram uma reunião com Bolsonaro para apaziguar relações, aconteceu o mesmo: auxiliares recomendaram que o presidente evite o encontro para não entrar em embate com adversários. No conflito cara a cara, Bolsonaro perde pois evidencia seus delírios golpistas e desestabiliza ainda mais o país em crise econômica, social e sanitária.

Em carta, os governadores do Nordeste disseram "que as instituições estaduais cumprirão a missão de proteger a ordem pública e, por isso mesmo, não participarão de qualquer ação que esteja fora da Constituição. Não permitiremos que atos irresponsáveis tumultuem o Brasil", reafirmando o posicionamento a favor da democracia e contra Bolsonaro, afastando a hipótese de levante das polícias militares.

O que preocupa os governadores deveria também perturbar Bolsonaro. Enquanto a inflação, o desemprego e a pobreza seguirem crescendo, o presidente não terá chance de melhorar a rejeição de mais de 60% que alcançou na semana passada.

O que sobra é o apoio dos bolsonaristas radicais, que não o largam por nada. Por estarem mais armados e expressarem posições de maneira mais violenta, causam medo. O medo, aliás, é um componente tático com o qual Jair sabe que conta.

As pesquisas mostram que diante de qualquer atitude de Bolsonaro, o presidente tem três pessoas contra (rejeição de mais de 60%), uma a favor (cerca de 20% que o aprovam como "ótimo/bom") e mais uma que está pré disposta a ficar contra (20% que o avaliam como "regular" ou "não sabe"). Por outro lado, a aprovação de prefeitos e governadores sobe desde maio. A de Bolsonaro só cai.

O desgaste do Brasil causado pelo governo Bolsonaro se consolida cada vez mais. O estrago para a democracia e os direitos humanos está feito, é grave e não será fácil reconstruir o país. Os bolsonaristas radicais estão se sentindo legitimados pelo presidente a atuar com violência. É preocupante.

Com toda essa deterioração do país impulsionada por seu governo e por sua figura, Bolsonaro pode ficar fora do jogo eleitoral em 2022. Afinal, quem quer colar a imagem a um político golpista, que não se comove com as mortes na pandemia e que a população rejeita? Como ele mesmo assumiu na manhã desta quinta (26), em entrevista à rádio Jornal Pernambuco, ele está "praticamente sozinho".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL