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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

TV Cultura exibe filme sobre o fiasco do "Dia da Boa Notícia" no 11/9

Com um total de 2.996 mortes, o 11 de setembro foi e é o maior atentado em solo americano da história - Getty Images
Com um total de 2.996 mortes, o 11 de setembro foi e é o maior atentado em solo americano da história Imagem: Getty Images
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Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

11/09/2021 06h01

Onde você estava no dia 11 de setembro de 2001, às 9h46 (horário de Brasília), quando um Boeing 767 se chocou com o World Trade Center, em Nova York? A lembrança da jornalista Carina Martins é das mais curiosas. Ela estava no comando da homepage do portal de notícias iG e não foi autorizada por seu chefe a noticiar o choque do avião com o edifício.

Naquele 11 de setembro, o iG estava promovendo o Dia da Boa Notícia, uma iniciativa pensada ao longo de um mês com o propósito de divulgar apenas informações positivas na capa do portal. Somente após a explosão do segundo avião, às 10h03, as péssimas notícias do 11 de setembro ganharam destaque na homepage.

Perto de completar 20 anos, esta experiência gerou a produção de um filme de curta-metragem. Com o título, naturalmente, de "O Dia da Boa Notícia", será exibido neste sábado, às 22h45, na TV Cultura. Dirigido por Lucas Zacarias e João Paulo Vicente, tenta explicar o que estava por trás da iniciativa (uma ação de marketing), descreve a cronologia do desastre jornalístico e discute o conceito de boa notícia.

Diretor de jornalismo do iG na época e hoje na mesma função na TV Cultura, Leão Serva conta que a data (11 de setembro) foi escolhida um mês antes, em 11 de agosto, quando ele aceitou a missão de expor exclusivamente conteúdo positivo na homepage. Era o tempo que precisava para colocar repórteres para apurar e fazer matérias sobre boas notícias.

"Claro que isso tem muito mais a ver com publicidade do que jornalismo", pontua a editora Mariana Castro no filme. "Os jornalistas não ficaram satisfeitos. Não dá para brigar com os fatos".

O primeiro sinal de problema ocorreu no final da noite de 10 de setembro, quando chegou a notícia do assassinato do prefeito de Campinas, Toninho do PT. Consultado, Serva mandou esconder a notícia no pé da homepage a partir da 0h do dia 11.

Carina Martins entrou às 7h do dia 11. Às 9h46, começou o pesadelo. "Estava acontecendo o apocalipse e a homepage com o Dia da Boa Notícia", lembra. A editora telefonou para Serva. O jornalista diz que estava dirigindo e imaginou que fosse um avião pequeno. Determinou, por isso, que o iG não noticiasse na sua vitrine a explosão.

Quando o segundo avião se chocou contra o WTC, Carina voltou a telefonar para Serva. E disse: "Vou dar de manchete (notícia principal). Quando você chegar aqui me demite. Não existe nenhuma hipótese de manter essa farsa". Vinte anos depois, no filme, o chefe festeja a insubordinação da editora. "Uma insubordinação premiada", diz.

Um editorial explicou o fracasso da iniciativa: "Tentamos, mas as más notícias se impuseram. Chega do Dia da Boa Notícia".

Mas isso não quer dizer que o jornalismo não deva buscar boas notícias e reportá-las. "Notícias que trazem inspiração são boas notícias", diz Francisco Itacarambi. "É importante divulgar as boas iniciativas, que podem transformar a realidade", concorda Mariana Castro. "Defendo que o jornalismo dê mais atenção às boas notícias, mas jamais faria novamente", conclui Serva.

Veja o trailer: