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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caçulinha cospe na mãe; segue exemplo de papai Bolsonaro, que cospe no povo

Jair Bolsonaro e o filho Jair Renan Bolsonaro - Evaristo Sá / AFP
Jair Bolsonaro e o filho Jair Renan Bolsonaro Imagem: Evaristo Sá / AFP
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

06/04/2021 14h47Atualizada em 06/04/2021 16h27

Filhinho de papai, o Zero 4 enche a boca de água e cospe na mãe. Que se rende à falta de modos do neném.

Exemplos são copiados com entusiasmo pela prole do capitão. A falta de modos, a rudeza, o escárnio, a ausência de discernimento, mais uma capacidade inconteste de fazer a multiplicação de pães, peixes e peixes, como no milagre bíblico.

Os R$ 89 mil depositados na conta de Michelle, sem explicações para a fonte dos recursos, são a demonstração dessa capacidade bíblica, aliás replicada pelo filho mais velho do capitão.

Bem-sucedido, o Zero qualquer coisa, dono de mansão em Brasília, comprada com soldo de senador, fez o milagre da multiplicação dos chocolates e, graças a seu talento, ocupa casarão com 1.100 metros quadrados. Enquanto isso, as investigações sobre o crime de peculato - nome carinhosamente chamado de rachadinha - esfria.

O exemplo dos pais, forma mais eficaz de educar filhos, mostra que a crença é fundamentada. Renanzinho, o tal do cuspe na mãe, por exemplo, confirma o talento da família para bons negócios e boas relações.

Ganhou de presente, ano passado, um carrinho elétrico estimado em R$ 90 mil, de empresários que também, magicamente, tiveram acesso a ministro de estado, em audiência presenciada pelo caçulinha.

São exemplos que constroem hábitos, daí vícios. Demonstrações públicas de falta de respeito - em nome de uma espontaneidade sem limite - são apenas a expressão do tosco, do rude, da falta de educação. São também o reflexo de uma conduta em que o outro pouco importa. Aprendido com papai.

A tal espontaneidade que pretende ser uma marca do populista capitão reformado tem apenas o mérito e a função de esconder a ausência de repertório e capacidade intelectual. Daí ser preciso criar imagens factoides para tentar desmentir o que parece explícito: o isolamento político do capitão, dentro do se próprio governo. Posa no sopão com um Braga Netto promovido para o Ministério da Defesa - onde teve que aceitar as regras da corporação - ainda que tivesse a vontade de puxar um pouco o saco do capitão.

Bolsonaro toma sopa - Exército Brasileiro - Exército Brasileiro
Jair Bolsonaro com Braga Netto em live tomando sopa em Brasília
Imagem: Exército Brasileiro

E que não fiquem dúvidas. A foto compartilhada pelos generais - as duas visitas ao general tuiteiro Villas Bôas, com um general Pujol que deixava o comando do Exército e o general Paulo Sérgio, que chega - mostra que a corporação tem regras. Numa cadeira, sentando-se, um distensionado Pujol mostra que se sente com o dever cumprido - pernas esticadas, e um outro, de prontidão, o Paulo Sérgio está pronto para a ação - sentado quase em continência. Não tem a postura de quem vai arregar na defesa da sua conduta, obediente à ciência na proteção da tropa.

General Paulo Sérgio se encontra com antecessores: Pujol e Villas Bôas - Exército Brasileiro - Exército Brasileiro
General Paulo Sérgio se encontra com antecessores: Pujol e Villas Bôas
Imagem: Exército Brasileiro

Na posse secreta promovida pelo capitão, mais um sinal de quem se esconde, a pretexto de aglomeração que não lidera; os fatos também transbordam. No discurso de posse, o novo ministro das Relações Exteriores, Carlos Alberto Franco França, refere-se ao estapafúrdio Araújo numa única linha. E anuncia a rendição à história da diplomacia brasileira: a construção de pontes. Uma resposta oportuna à crise de imagem do Brasil no exterior, em que o país é ridicularizado e temido pela ameaça que representa ao mundo, fruto das escolhas de um presidente deslocado da realidade e com pouca, ou nenhuma, capacidade de compreender a tragédia brasileira - a pandemia da qual é um dos artífices.

Enquanto o filho cospe na mãe, o capitão cospe no povo. É preciso mantê-lo dentro do cercadinho, para que o exemplo não seja seguido por seus outros filhos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL