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Olga Curado

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Vacina cara, comprada com ajuda de Bolsonaro, fulmina o mito anticorrupção

Jair Bolsonaro conversa com apoiadores - Reprodução/Foco do Brasil
Jair Bolsonaro conversa com apoiadores Imagem: Reprodução/Foco do Brasil
Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

23/06/2021 16h06Atualizada em 23/06/2021 19h09

Vão caindo os tapumes do discurso do capitão reformado, que invocava, a uma crédula e desinformada turba, que estava acima das tentações da carne. Anunciava com veemência o propósito de passar a limpo o país acometido do mal nefasto da corrupção. Contou com a ajuda necessária de um ex-juiz alçado à condição de ministro da Justiça e agora reconhecidamente apontado por juristas, acadêmicos, íntimos das leis e do Direito, e com o reconhecimento do STF (Supremo Tribunal Federal), como parcial em julgamento contra o ex-presidente Lula.

O mito de que a corrupção "não existe no governo do capitão", como dizem de boca cheia seus vassalos, está ruindo. Não bastassem as denúncias, cujas investigações permanecem inconclusas por manobras de todo o tipo, visando, claro, proteger os filhos do capitão, e que não são reconhecidas como apropriação de dinheiro público. Rachadinha, no Código Penal, se chama peculato. Corresponde a pegar salário de funcionários de gabinetes de parlamentares.

Além disso, ninguém faz as contas das habilidades de Midas - o mítico rei que transformava em ouro tudo que tocava (e que morreu de inanição), do filho Zero alguma coisa, feliz proprietário de mansão em Brasília, cujo soldo como senador é insuficiente para comprar o imóvel, mesmo somando a pecúnia com o caixa arrecado de apartamento que alega ter vendido, mas que continua em seu nome.

Ao deixar o cargo que pouco honrou no Ministério da Saúde, o general da ativa falou que sofria pressão para dar "pixulé". Na desastrosa gestão do meio ministro, que tinha a incumbência de liderar o país na luta contra a sanha do vírus que matou mais de 500 mil pessoas no Brasil, parece ter algum rastro de "pixulé", a serem verdadeiros os indícios de contratação impertinente de compra da vacina Covaxin.

Teve gente graúda na estrutura do ministério do general da ativa trabalhando fora do horário de expediente para assegurar que uma vacina não aprovada pela agência de vigilância sanitária do país, a Anvisa, fosse comprada a peso de ouro. O "pixulé", como carinhosamente se denomina uma sobra de orçamento - segundo explicou à CPI o general -, é, porém, reconhecido vulgarmente como um termo que designa "uma grana" por fora.

O acesso ao Brasil foi garantido à vacina da Índia, produzido por um laboratório que, inspecionado, não logrou atender aos requisitos de produção pré-definidos pela Anvisa, além de não ter o seu uso autorizado, ainda que emergencialmente, no país.

A volúpia inexplicável, do Congresso, de um deputado Ricardo Barros, que pragueja contra a Anvisa e muda texto de lei, para ir célere na construção de dispositivo legal que permitisse a importação da Covaxin, fechando acesso a outras, é um mistério. Concede, na mudança da lei, autorização de uso de imunizante, desde que este fosse permitido pelas autoridades sanitárias da Índia. Uma generosidade para com o laboratório, já que a tal autoridade sanitária não estava incluída entre aquelas agências cuja reputação justificaria liberação automática para a população brasileira.

Mas o assunto parece ter o dom de gerar desequilíbrio emocional. O meio-ministro da Saúde, o médico Marcelo Queiroga, felizmente a salvo da covid-19, pelo uso de máscara e aparentemente respeitando o distanciamento social, de mãos dadas com os bonecos do Zé Gotinha, foi, todavia, contagiado pela irritação e desequilíbrio emocional do capitão, de quem não é censor. Cobrado sobre a celeridade na compra da vacina Covaxin, saiu abruptamente de entrevista, visivelmente acabrunhado e desconfortável com as explicações que terá que produzir sobre o assunto. Como vem dizendo e repetindo à exaustão, ele é "um ministro do presidente". Então, afinal de contas, explique.

Como e por que se deu a contratação de compra da Covaxin, com empenho pessoal do capitão reformado, mesmo depois de alertado por servidor de carreira do Ministério da Saúde e pelo deputado irmão deste mesmo funcionário, de cuja assinatura dependia um pagamento de US$ 45 milhões adiantados para uma empresa, parceira do laboratório, estranha ao contrato, e criada meses antes?

O capitão reformado diz ter ojeriza à corrupção. Não terá dificuldade em explicar como pegou o telefone e ligou para o primeiro-ministro da Índia, pedindo o imunizante do laboratório daquele país, assegurando que a vacina faria parte do programa brasileiro de vacinação, mesmo que não houvesse até então autorização da Anvisa para uso no Brasil.

E não terá dificuldade em explicar, cioso que se diz ser quanto ao uso do dinheiro público, por que pulou rapidamente para a aquisição de um imunizante cujo preço é, em média, quatro vezes mais caro que o da Pfizer, cuja oferta se recusou a avaliar por quase um ano.

Há quem diga, nos corredores de Brasília, que entre uma baleia e um tubarão - numa cínica e debochada referência à escolha para a Presidência da Câmara dos Deputados - a prudência recomendaria a escolha da baleia. Tubarões ficam ferozes e matam quando têm fome.

Apenas uma digressão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL