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Olga Curado

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tira o golpe do armário e entrega as chaves aos militares

13 jan. 2022 - Presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), comandante do Exército, general Paulo Sérgio, e chefe do Estado-Maior da força, general Amaro, em encontro no Palácio da Alvorada, em Brasília - Divulgação/CCOMSEx
13 jan. 2022 - Presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), comandante do Exército, general Paulo Sérgio, e chefe do Estado-Maior da força, general Amaro, em encontro no Palácio da Alvorada, em Brasília Imagem: Divulgação/CCOMSEx
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Olga Curado

Jornalista, escritora, consultora de imagem e faixa preta de Aikido. Autora de livros de comunicação e de ficção. Fundou e dirige a consultoria Curado & Associados, onde desenvolveu método de treinamento de comunicação para lideranças e um sistema de aferição de imagem pública (iVGR). www.olgacurado.com.br

Colunista do UOL

10/05/2022 09h49Atualizada em 10/05/2022 11h41

O general Paulo Sérgio, Ministro da Defesa, interpreta o significado de hierarquia igual a seu colega de farda - o Pazuello (agora ghost writer, cujos proventos são pagos fora contabilidade da campanha, para produzir de um suposto plano de governo para o ex-capitão, que sonha não colocar em prática qualquer plano de governo, caso seja reeleito).

A barafunda das questões trazidas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) pelo general Paulo Sérgio, sobre potenciais vulnerabilidades do sistema eleitoral, é uma demonstração de que cada macaco no seu galho pode contribuir para que não tenhamos todos - brasileiros e brasileiras - que experimentar a vergonha alheia. As Forças Armadas poderiam passar sem essa. Entregar, três meses depois de findo o prazo para apresentação de dúvidas, um desfiar mal-ajambrado que denota desconhecimento tecnológico básico sobre o funcionamento do sistema eletrônico das urnas de votação.

O Ministro da Defesa - cuja atribuições como militar não incluem a revisão do voto popular, mas garantir a soberania nacional dentro que é estabelecido constitucionalmente - poderia ter-nos poupado a todos que votamos, utilizando a urna eletrônica há duas décadas, do amadorismo conspiratório. Aliás, o próprio ex-capitão foi eleito para ocupar a sinecura do baixo clero na Câmara dos Deputados - onde a prática de "rachadinha" ainda clama por apuração - valendo-se do voto na urna eletrônica.

O uso do uniforme militar, de instituições de ensino reconhecidas para sustentar "questões" a respeito das urnas, é um atabalhoado gesto que segue a cartilha do golpismo primário, que se baseia na desinformação deliberada para turbinar a milícia digital, criando o ambiente, o "esquenta" - para repudiar a fala do eleitor, que antecipa o seu cansaço e descrença com a estultice do atual governo.

A determinação do ex-capitão, em fazer com que as Forças Armadas se mantenham como reféns de um projeto golpista, investe contra o que os próprios militares, ao se profissionalizarem, assumiram como sua responsabilidade constitucional a partir da redemocratização, e ameace um patrimônio duramente reconquistado de respeito e credibilidade. A tropa não merece.

Numa gestão de crise é clássico reconhecer que a perda de reputação pode acontecer num único evento, mas irá também se deteriorar por ações repetidas sistematicamente, na linha da "água mole em pedra dura", até que a rocha se decomponha, na ilusão de que se trata de um acontecimento repentino. Não é.

O ex-capitão, com a ajuda dos sabujos de sempre, abriu a porta do armário onde guardava, apenas pela sua retórica estridente e ignorante, a ameaça de golpe - claro, teve a colaboração simbólica de marias-fumaça, desfilando pela Praça dos Três Poderes, no ano passado.

Agora tem - além da sabujice melancólica de um general da ativa disposto a tudo para manter os seus salários e benefícios, de ministro da Saúde a "aspone" no Palácio do Planalto - um general que parecia ter entendido qual era a sua função quando estava no Comando Geral de Pessoal e seguiu a cartilha da recomendação da ciência no combate à pandemia (sem oferecer cloroquina para os seus soldados).

Mas qual! O general Paulo Sérgio segue ordens. E, como já aprendeu com o colega Pazuello, "obedece quem tem juízo". O entendimento segundo o qual o ex-capitão é o "Comandante Supremo das Forças Armadas" carece de melhor compreensão do que significa atender a ordens que estão fora do escopo das atribuições das Forças Armadas. Mas o ex-capitão não sossega. Apavora-se com o risco para ele próprio e para sua prole: investigações e julgamentos em diferentes cortes que podem punir, com cadeia, malfeitos atualmente protegidos por foro especial.

Agora, o general Paulo Sérgio quer uma vaga no TSE para acompanhar o trabalho do Tribunal, como se tivesse alguma prerrogativa constitucional para tutelar o processo eleitoral, ameaçando amordaçar o voto dos milhões de brasileiros.

A frente ampla "lula-com-chuchu" é a alternativa inevitável contra o golpismo. É mais que uma opção política e eleitoral. É o mecanismo necessário para nocautear o golpismo, devolvendo-o ao passado que não pode ser revivido. Quem não gosta daquele prato, confira o cardápio do ex-capitão: violência, destruição do meio ambiente, desrespeito aos direitos humanos, descontrole da inflação e pobreza - econômica e cultural. Uma gastronomia para quem não tem estômago.