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Plínio Fraga


Povo vai à rua mais por dinheiro do que por política

O ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista em Washington, na qual citou o AI-5 como resposta ao chamado das ruas - Olivier Douliery/AFP
O ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista em Washington, na qual citou o AI-5 como resposta ao chamado das ruas Imagem: Olivier Douliery/AFP
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

27/11/2019 04h00

Se brasileiros voltarem a protestar nas ruas, há mais chance de a responsabilidade ser do ministro da Economia, Paulo Guedes, do que de Luiz Inácio Lula da Silva, o principal líder oposicionista. O motivo é simples: as razões econômicas _ desemprego em alta e renda em baixa _ são fatores de combustão mais poderosos do que convocações político-partidárias.

Na desajeitada entrevista em Washington, Guedes reclamou de a oposição chamar o povo para ruas e flertou descabidamente com propostas de desvios institucionais como resposta. Flor da elite financeira liberal, Guedes é daqueles que acham que, se algo tem lógica econômica, não precisa nem deve precisar de ter lógica política. Nas democracias representativas, entretanto, a política é responsável pela mediação dos atos econômicos _ regra contra a qual Guedes já demonstrou revolta em depoimentos públicos no Congresso.

Desde seus tempos de articulista na imprensa brasileira, Guedes alertava para o que chamava de "cálculo político no esvaziamento das ruas", preocupado com que a massa "incendiada" impedisse o bom funcionamento da economia.

Um indicador simples do momento atual é que o desemprego brasileiro está o dobro do que estava em junho de 2013 e com recordes nos índices de desigualdade de renda _ os mais ricos cada vez mais distantes dos mais pobres. Esta sim é a fagulha dos protestos, bastando analisar para tal a sequência de explosões sociais na América Latina, região em que 10% da população mais rica é responsável por 71% da riqueza.

Citando o pensador Raymond Aron, autor caro a Guedes, é importante captar, por trás da sequência aparentemente acidental dos acontecimentos, as causas profundas que os explicam.

O que motivou as explosões sociais sucessivas em vários países da América Latina, como Chile, Colômbia, Peru, Equador, Bolívia e Haiti, entre os mais recentes, com vários desempenhos econômicos e governos de diferentes sinais políticos? Essas explosões sociais por muitas vezes tiveram origens em movimentos distantes do ativismo organizado tradicional. Foram explosões parcialmente violentas, com saques, incêndios e destruição, com respostas governamentais duras, como estado de emergência, toque de recolher, militarização do espaço público

O que tem convulsionado as ruas na América Latina nasce da exclusão social, da falta de acesso a serviços de educação e saúde, da precariedade de salários e aposentadorias, com os atores políticos permanecendo insensíveis às demandas imediatas dos cidadãos.

A substituição das instâncias de mediação - partidos e parlamentos - por um estilo personalista de governo _ de direita ou de esquerda _ coloca mais caldo na fervura. São aqueles líderes autoritários que acreditam falar em nome do povo, mas não querem ouvi-lo diretamente. E muito menos que se postem a gritar nas ruas.

Plínio Fraga